sexta-feira, 15 de novembro de 2013

CAPÍTULO 4

Joe chegou a sentir-se tonto de raiva. Ao mesmo tempo, o que acabara de descobrir bania o fantasma da culpa que o atormentou por anos. Ele não a tocou nem com raiva nem com desejo. Sentiu-se maravilhosamente liberado ao saber daquilo.
Segurando Demi pela mão, Joe puxou-a com seu jeito arrogante. Ele se encaminhou para o helicóptero sem dar qualquer explicação para ela.
O que está acontecendo? Para onde estamos indo? E o almoço? Todas essas perguntas passaram pela cabeça dela que, por precaução, permaneceu em silêncio. Será que ele se deu conta de que a noite do casamento deles não foi o acontecimento da década? Isso não combinava com ele.
De volta à casa do rancho, Joe empurrou a porta da frente e caminhou pela sala de estar. Seus olhos maravilhosos encararam os dela raivosamente.
- Pode perceber que durante sete anos me culpei por uma coisa que nunca aconteceu?
- Não sei do que você está falando. Por que vinha se culpando?
- Quando acordei na manhã seguinte a nosso casamento, estava nu...
- Foram os seus amigos...
- A cama foi desarrumada e refeita...
- Você me pediu um copo de água e derramou sobre a cama, por isso troquei os lençóis. – Demi estava confusa. - Quer dizer que estava bêbado demais naquela noite para se lembrar de qualquer coisa na manhã seguinte?
- Até hoje não lembro. Não lembro da parte final da recepção ou de qualquer coisa até a manhã seguinte. Tive uma completa amnésia... eu falei isso naquela época. Demi desviou o olhar, estava mais tensa. A sala estava sufocante, ela abriu a porta para entrar um pouco de ar fresco.
- Pensei que aquilo fosse apenas uma desculpa para encobrir o ocorrido...
- Por que eu mentiria?
- Porque as pessoas mentem quando bebem muito...
- Afinal de contas, sua mãe tinha problemas em falar a verdade sóbria ou sob a influência do álcool... não nos compare.
- Você não está sendo justo com ela ao falar isso.
Joe estava amargurado.
- Eu não estava mentindo quando disse que tive uma amnésia.
- Talvez este seja o ponto - Demi concordou relutante. - Eu não o conhecia o suficiente para saber.
A raiva incandescente de Joe não diminuiu, ele deu um passo para trás.
- No dia seguinte ao nosso casamento, você me evitou - ele sussurrou. - Não me encarava, não conseguia nem tolerar que eu tocasse sua mão.
- Simplesmente não queria tocar no assunto! Demi exclamou. A emoção brotava de dentro dela como uma tempestade só de lembrar a angústia de ter sido rejeitada naquele dia. Ela aprendeu a conviver com isso, mas ainda se desprezava por aquele amor que lhe tinha sido tão caro.
Joe aproximou-se dela com leveza e agilidade espantosas.
- Seja como for - ele disse. - Vamos falar sobre isso. Não estou propriamente preocupado com sua noção de decoro sexual.
Totalmente desequilibrada com a postura agressiva dele, Demi estava trêmula.
- Eu afirmaria que a prática de decoro não é uma de suas maiores habilidades.
- Você coloca isso como uma barreira entre nós - Joe andou lentamente em volta dela enquanto observava a luz do sol realçar a cor do cabelo de Demi. Ficou pensando qual teria sido a última vez que viu um cabelo tão natural e farto.
- Mas não suportarei isso outra vez.
Extremamente constrangida com a forma como ele a olhava, Demi estava reta e rígida como uma tábua.
- Não quero discutir.
- Eu que falo o que eu desejo e preciso! Você ainda fala como se eu tivesse ficado bêbado de propósito naquela noite. Minha bebida foi adulterada.
- Foi o que você disse naquela época - Demi estava disposta a acabar com a discussão, mas não tinha muita esperança em silenciá-lo.
- Você também não acredita nisso, não é?
- Não, não acredito.
- Mas era a verdade. Alguém colocou alguma droga em minha bebida. Eu só posso acreditar que era uma brincadeira, mas não foi muito divertido para nenhum de nós. Isso arruinou nosso casamento, me humilhou e trouxe problemas para nós dois.
Mesmo que Demi estivesse agora preparada para aceitar aquilo como verdade, ela virou a cabeça. Estava muito fraca. Todos os convidados sabiam o motivo pelo qual Joe estava se casando com ela e que ele estava entrando em um bom negócio por compaixão. Mas aceitar o fato de drogarem Joe até o estado de inconsciência na noite de seu casamento como uma brincadeira intencional? Ou como um favor a ele?
Certamente, Joe ficou sem condições de agir como um recém-casado. Alguém deve ter presumido que aquela era uma saída bem-vinda para uma tarefa desagradável, já que a noiva era claramente pouco atraente.
Estava convencida de que os risos reprimidos de divertimento que ouviu naquela noite a acompanhariam pelo resto da vida.
- Eu fui mais humilhada do que você - ela murmurou rapidamente, engolindo em seco, mas não adiantou. Não conseguiu segurar as lágrimas que escorriam pelo canto dos olhos.
No momento em que Joe se distraiu, ela virou-se rapidamente e encaminhou-se para o jardim, parou embaixo das macieiras e inspirou profundamente o ar puro, tentando se recompor.
- Como pode ter certeza disso?
Assustada, Demi virou-se. Joe estava no terraço. Ela sentiu uma grande dor quando olhou para aquele homem esbelto e de feições extremamente bonitas.
- Quando você teve que se casar comigo, sua família e seus amigos sentiram muito por você – ela relembrou, soluçando. - Ninguém ficou surpreso quando você ficou bêbado diante da possibilidade de dormir comigo!
Ele não sabia que ela se subestimava tanto e isso o deixou perturbado.
- Não pode ter pensado isso... como pode ter feito um drama de algo tão insignificante?
- Isso não era insignificante.
Amargurada e arrependida de sua franqueza, Demi curvou a cabeça e voltou para dentro de casa. Não podia mais suportar. Não via nenhuma vantagem em reviver toda aquela agonia de uma adolescente abandonada de quem o sonho do casamento transformou-se em uma tragédia.
- É a humilhação que você acredita ter sofrido que a impede de discutir o que aconteceu naquela noite? .
- Você é tão persistente.
- Eu não sei o que aconteceu e você não me contará, então suponho o pior. Fiquei descontrolado depois daquela bebida... e pelo jeito que você agiu e se comportou no dia seguinte, pensei que tivesse sido rude.
- Rude?
- Na cama... que eu tivesse a machucado ou forçado você a fazer o que não queria! - Joe trincou os dentes demonstrando desgosto e impaciência. Nunca me ocorreu que nós não tivéssemos feito amor.
- Do jeito que você estava, eu não teria deixado me tocar.
- Mas eu sou muito maior que você - Joe lembrou. - Você era virgem e eu não tinha a menor condição de levar isso em consideração. Quando se recusou a me olhar no dia seguinte, me senti como um violentador.
Tremendo e confusa, Demi lançou um olhar perplexo.
- Oh, não... certamente não.
- No que mais devo acreditar? Evidentemente, eu confundi tudo. Quando tentei beijá-la, você começou a chorar e disparou como uma bala, trancando-se no banheiro.
Demi suspirou profundamente. Estava começando a perceber como seu comportamento equivocado foi visto, por ele e o deixou culpado. Infelizmente, ela não queria seguir pelo assunto que ele tanto insistia. Ainda assim, se ele não se recordava daquela noite, seria correto que ela esclarecesse.
- Depois que saiu da recepção, você sumiu e a função de encontrá-lo ficou sob minha responsabilidade. Você estava com Blanda Morikis - ela usou um tom quase mecânico para contar.
- Desta parte eu ainda me lembro. Até este ponto estava tudo bem. Blanda estava angustiada. Eu a levei para fora do salão de festas para evitar constrangimentos.
Demi mordeu o lábio inferior. Ela deveria saber que ele daria uma versão diferente para aquele episódio. Quando se tratava de autodefesa, era bem rápido. .
- Quando eu os encontrei vocês estavam agarrados, e aquilo não parecia tão inocente assim.
- Por que você não falou sobre isso na época? Acredite em mim, era tudo inocente.
- Vocês estavam se beijando! - Demi gritou, abandonando a fachada de bons modos.
Joe suportou o olhar de acusação dela com uma frieza desafiadora, enquanto pensava no quanto sua boca era atraente e sensual.
- Ela estava chorando e me beijou e... eu a afastei.
- Claro, nesse momento eu já estava longe - Demi argumentou com os lábios tensos e as bochechas vermelhas. - Tudo que quero agora é o divórcio.
- Esqueça isso... você é uma Jonas, minha mulher. Toda essa conversa é ofensiva.
- Não, não é - os olhos de Demi estavam embaçados de emoção. - Ofensivo é você achar que tem o direito de não me dar o divórcio.
Joe ajeitou os ombros largos por baixo do elegante terno, respirou profundamente e expirou, soltando um assobio.

- Você não acha que nós deveríamos dar uma chance a nosso casamento antes de falarmos em divórcio?
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