domingo, 1 de outubro de 2017

AMOR SEM FIM CAPÍTULO 1

MUITO bem-humorada e pronta para seu segundo dia como funcionária temporária nas indústrias Jonas, Demi estava entusiasmada. No banheiro, em casa, subiu na balança e olhou esperançosa para o ponteiro. Fechou os olhos e fez uma careta. Não tinha sido uma boa idéia. Desceu da balança. Tirou a camisola e o relógio e voltou a subir, bem de leve. Para sua decepção, o peso continuava o mesmo.
— Não pode se manter apenas com uma saladinha. — A sra. Evans, que morava no primeiro andar, tinha dito a Demi, durante um delicioso almoço completíssimo de domingo, poucos dias antes, com direito a entrada, prato principal e sobremesa.
Pelo visto, a saladinha teria sido muito mais segura. Ou, possivelmente, a barra de chocolate que havia comido na noite anterior, ao passar pelo supermercado, tinha sido um pecadilho com pesadas consequências. A verdade era que as longas horas de trabalho para pagar o aluguel aumentavam terrivelmente seu apetite, de modo avassalador. Ainda assim, não ganhava o suficiente para se alimentar bem. No reflexo do espelho, os olhos verdes passearam, desanimados, por toda a extensão do corpo, pelo reflexo dos seios fartos e das cadeiras volumosas.
Apertando os lábios carnudos, agarrou a cabeleira vermelha com dedos impacientes, prendeu-a com uma presilha e se vestiu rapidamente. O jeans escuro e a blusa branca estavam marcando as opulentas curvas mais do que deveriam, e ela franziu a testa. Um incêndio no endereço antigo onde morava havia queimado quase todos os pertences de Demi. E ela estava tentando renovar o guarda-roupa, fazendo compras em brechós e lojas de roupas usadas, mas não era fácil com o baixo salário que recebia. Ao se virar de costas para o espelho, a atenção se voltou para a foto, na cabeceira da cama, da irmã falecida. Repreendeu-se por se preocupar tanto com a aparência quando tinha a sorte de ter saúde.
— Veja o lado bom. — Este fora o refrão mais repetido pela avó na infância de Demi.
— Depois da tempestade sempre vem a calmaria — o avô costumava comentar com determinação.
Ainda assim, Demi e os avós conheciam muito sobre a dor e o sofrimento. Sunny, a irmã gêmea que Demi tanto amava, havia sido diagnosticada com leucemia logo após o aniversário de 8 anos. O estresse de ter que enfrentar a doença de Sunny acabou destruindo o casamento dos pais. Os avós paternos haviam tomado a responsabilidade para si, cuidando de Sunny durante o extenuante tratamento da menina, o período de melhora e, finalmente, os últimos dias de vida. A forte determinação de Sunny em aproveitar cada minuto que lhe restava ensinara a Demi sobre a importância de vestir roupas alegres e de se cuidar.
Enquanto esperava pelo ônibus, no ponto, Demi lutava para aplacar uma excitação juvenil e se perguntava se aquele seria o dia que conseguiria avistar o lendário Joseph Jonas novamente. Tinha que admitir que quando pensava nele sentia-se como uma adolescente e não como uma adulta de 23 anos! Era constrangedor recordar que certa vez recortara uma foto no jornal do estonteante e lindo armador grego e a guardado com devoção. No entanto, na época, era apenas uma menina e havia alimentado uma paixão platônica por ele.
As indústrias Jonas ficavam em uma torre de escritórios que ocupava um quarteirão inteiro, na cidade de Londres. Demi nunca havia trabalhado em um lugar tão imponente, cujas normas internas para os funcionários eram bem rígidas. Mesmo sendo apenas uma contratada temporária, e geralmente encarregada de tarefas triviais, a falta de experiência causou olhares de reprovação no primeiro dia de trabalho.
Como sempre, tentava compensar a inexperiência com muito entusiasmo e dedicação. Faria de tudo para conseguir um trabalho permanente naquela companhia, porque um salário maior faria enorme diferença em sua vida.
— Mais quinhentos cargos, aproximadamente, estão sendo transferidos para a Europa Oriental, para conter custos. — Uma voz feminina lamentou do lado de fora da sala onde Demi estava encarregada de instalar os dados do sistema da empresa em um dos computadores.
— A imprensa vai fazer alarde quando souber.
— As indústrias Jonas estão entre as três companhias mais bem-sucedidas do mundo — uma voz masculina retrucou. — Joseph Jonas pode ser um escroque impiedoso, mas é invencível nos negócios. Não se esqueça que graças ao tino que tem para os negócios, a gratificação que vamos ganhar este ano deve ser ainda maior.
— Você pensa em outra coisa sem ser dinheiro? Jonas é um milionário com tantos sentimentos quanto um bloco de granito.
Demi ficou tentada a se meter na conversa e protestar contra aquela acusação. Mas não estava em condições de fazer nada, visto que ouvira conversa alheia. Além disso, apesar da admiração que sentia por Joseph Jonas , não tinha o direito de falar sobre assuntos privados do próprio chefe. Deu um suspiro e voltou a atenção para o computador.
Depois do almoço, ela e uma colega de trabalho, Stacy, foram mandadas para o primeiro andar. A gerente, uma loura chamada Annabel, disse a Stacy que ela teria que servir bebidas em uma reunião na parte da tarde.
— Estou cobrindo férias, não sou garçonete! — Stacy declarou, contrariada.
— Como funcionária temporária você tem que fazer o que pedem — Annabel retrucou rispidamente. — As indústrias Jonas exigem um alto nível de flexibilidade de seus funcionários.
— Não sou funcionária. Não estou aqui para servir chá.
— Não tem problema. — Demi se intrometeu para acabar com a discussão, antes que ela e Stacy acabassem sendo despedidas. — Eu posso servir.
Ao ouvir a oferta, Annabel suavizou apenas sutilmente a expressão fria e indiferente, voltando os olhos para a calça jeans de Demi.
— O código da empresa não permite jeans, mas suponho que terei de abrir uma exceção, pois se trata de uma emergência.
— Se fosse você, tinha dado um fora nessa mulher por ter chamado a atenção para sua roupa — disse Stacy, logo que as duas ficaram sozinhas. — Está fazendo um favor a ela.
Demi fez uma careta.
— Ela só está cumprindo ordens. Mas minha saia está lavando e só tinha esta calça para vestir.
— Aposto que ela está é com inveja — debochou Stacy. — Os homens que estavam saindo do elevador não conseguiram tirar os olhos de você e ela não gostou nada disso.
Demi ficou ruborizada.
— Acho que ela está apenas nervosa por causa da reunião.
— Você tinha que tirar proveito do que tem — disse Stacy. — Com seu rostinho e esse corpo, tentaria a carreira de modelo ou algo parecido. Ia ganhar muito dinheiro.
Demi não disse nada, mas não gostava da idéia. Às vezes, achava que tinha nascido com o corpo errado, pois se sentia muito incomodada com os olhares masculinos e a atenção que causava seu corpo cheio de curvas.
Tão logo apanhou uma bandeja com chá e xícaras, Annabel abriu a porta e informou sobre as novas instruções:
— O sr. Jonas estará na reunião. Quando entrar na sala de conferência, sirva as bebidas em silêncio e o mais rápido que puder.
Joseph passou rapidamente à frente do resto da equipe e avistou a ruiva segundos antes que a porta da cozinha se fechasse. O breve instante foi suficiente para que a imagem relâmpago daquela mulher ficasse impressa em sua memória: cabelos brilhantes que reluziam como cobre e ouro em contraste com a pele alva caíam até a cintura delicada e estreita; os seios eram voluptuosos e sensuais.
Uma onda forte de testosterona inundou o corpo de Joseph. Sempre conseguia controlar seus impulsos sexuais e por essa razão ficou impressionado com sua repentina excitação. Concluiu que só podia ser a constatação de uma verdade primitiva: gostava de mulheres mais cheinhas do que das modelos que geralmente cruzavam seu caminho. Mesmo assim, aquela sensação impulsiva o irritou e ele se forçou a esquecê-la.
Com os nervos à flor da pele, por causa da possibilidade de rever Joseph Jonas, Demi acabou derramando o dobro de pó de café no bule que preparava. Muito forte e muito doce: era assim que ele gostava. Por um momento as lembranças a invadiram e ela sorriu. Espantou as lágrimas escondidas no canto dos olhos.
A conversa parecia animada na sala de conferência, quando Demi entrou com o carrinho de chá e fechou a porta delicadamente. Só depois direcionou o olhar para o homem ao lado da janela. Havia se prometido que olharia rapidamente, mas não conseguiu. Estava hipnotizada. Ele estava completamente impecável que, sem dúvida, revelava ter sido feito sob medida.
Estava ainda mais deslumbrante do que da primeira que o viu, concluiu Demi, um pouco tonta. Nove anos haviam apagado todos os traços de menino do rosto magro e o corpo forte ganhara ainda músculos. Mas ele mantinha o queixo estendido de orgulho, a cabeça erguida imperiosamente, a cabeleira preta e o olhar inesquecível e penetrante, por teixo de espessas sobrancelhas. Tinha olhos incríveis; dependendo da luz ou quando ria, ficavam acobreados e brilhantes.
— Por que não está servindo? — alguém sussurrou ao seu ouvido.
Demi levou um susto e acordou do transe como se tivesse levado um tapa. Quando apanhou a primeira xícara com o pires, Joseph Jonas a avistou e ela voltou a ficar imobilizada. O estômago contraiu-se e o coração disparou, dificultando a respiração. Por um segundo, o mundo ao redor desapareceu. Demi só conseguia perceber a sensação estranha que pesava em seu peito, a boca seca, e algo quase doloroso que formigava pouco abaixo da pélvis. Abaixou os olhos, tentando conter a confusão que a assomava. Ficou impressionada pelo fato de que era necessário um esforço físico para conseguir se concentrar em sua tarefa.
Café: forte, preto, doce, lembrou a si mesma, enquanto se perguntava onde estava com a cabeça. Ao imaginar qual seria a resposta, sentiu as bochechas corarem na mesma hora, de vergonha. Em poucos segundos todo o rosto estava vermelho. Minha nossa!
Nunca mais ousaria olhar para ele novamente! Buscou acalmar-se e respirou fundo enquanto enchia a xícara de café para ele. Involuntariamente, acabou acrescentando quatro colheres cheias de açúcar, mexeu e forçou o passo na direção dele.
Joseph havia estado meio entediado até então. Se não a tivesse visto novamente, tinha certeza de que não pensaria mais nela. Porém, a presença daquela ruiva a poucos metros de distância descartava tal possibilidade. Em um movimento elegante, sentou-se à mesa. Seria uma garçonete terceirizada? Ou fazia parte da equipe da copa?
Ao olhar para ela, rapidamente, perdeu o interesse por pequenos detalhes de sua identidade. Preferiu se deter nos detalhes de sua figura. Era mignon, tinha um rosto lindo, com lábios carnudos e naturalmente rosados, que combinavam simetricamente com as abundantes curvas do corpo. Os olhos verdes lhe lembravam um pedaço de vidro da mesma cor que havia encontrado na praia quando era criança.
A boca bem desenhada de Joseph se contorceu ao lembrar da reação de desprezo da mãe ao receber um presente tão bobo. No entanto, ao ler a expressão calma da pequena e sensual ruiva, a lembrança desagradável de sua infância perturbadora desapareceu.
Quando Demi serviu o café para Joseph, a mão tremia tanto que ele teve que apanhar a xícara e envolver o pulso dela para evitar um acidente.
— Cuidado — Joseph a advertiu.
Foram necessários apenas alguns segundos para que o perfume floral estonteante da pele alva dela lhe invadisse o olfato. Rapidamente ele ficou excitado.
Durante um breve olhar que ela lhe deu, pôde perceber quão vulnerável ela estava. Ela se encontrava tão próxima que ele mal conseguia respirar, e aquela constatação era incrivelmente excitante. Imaginou agarrando-a, sentando-a em seu colo, abrindo sua blusa até que os seios estivessem à mostra e usando a boca e as mãos para brincar com as curvas abundantes que marcavam o tecido da roupa.
Ficou surpreendido com o poder erótico daquela visualização e afastou a fantasia com desdém. Desde quando se interessava por garçonetes? Tomou um gole do café fortíssimo, mas a tensão que lhe invadia o corpo exaltado recusava-se a desaparecer.
Com calor por todo o corpo e tremendo, Demi deu a volta. Sentia-se uma tola! O que ele devia estar pensando dela, por ter ficado encarando-o daquele jeito? Obviamente, havia notado que ela o olhava boquiaberta. Como não poderia ter notado? Olhou ao redor e percebeu que ninguém havia observado o deslize e a intervenção dele, ou o olhar de reprovação. Aliviada, mas ao mesmo tempo chateada pela cena deplorável que fizera, recompôs-se e começou a servir as demais pessoas sentadas à mesa.
— Este café está intragável — reclamou um dos presentes, fazendo uma careta.
Demi ficou consternada com o comentário.
— Ao contrário, é o primeiro café decente que tomo nesta empresa — respondeu Joseph com um tom impaciente. — Vamos continuar com a apresentação.
Vexada e frustrada pelas críticas, Demi não per deu tempo em responder ao sinal de Annabel Holmesv para que se apressasse e servisse logo a todos. No afã de cumprir tal missão e escapar rapidamente da sala de conferência, Demi tropeçou em um dos fios espalhados no chão. Perdeu o equilíbrio e caiu, de frente, sobre o carpete. O computador cujo fio enroscou-se no pé de Demi tombou logo em seguida. Por alguns segundos, o silêncio reinou no recinto. Joseph observou a ruiva de bruços com uma incredulidade sardônica. Ela parecia uma obra de arte sem igual, mas, sendo humana, tinha um defeito fatal: ao se mover era um acidente em potencial.
— Por que não olha por onde anda? — um dos executivos a repreendeu em tom de desespero.
— Sinto muito — disse Demi, sem graça, olhando consternada para o computador.
— O memory stick partiu ao meio — o homem resmungou. — Terei que tirar outra cópia da apresentação e mandar por e-mail para o senhor.
Pura impaciência estampou-se na face de Joseph, pois estava com prazos muito apertados. Não satisfeita em quase ter derramado café em cima dele, Demi havia conseguido, sozinha, arruinar a reunião.
— Como pode ser tão incrivelmente desastrada? — ele murmurou friamente.
Horrorizada com o estrago que havia causado e desolada pela reprimenda, Demi se levantou rapidamente e disse, em voz baixa:
— Sinto muito, senhor. Não vi o fio.
Naquele momento Joseph se perguntou o que havia naqueles traços delicados e na palidez daquela pele de tão familiar. Os olhos agora estavam levemente lacrimejantes, deixando o verde da íris ainda mais brilhante. Havia um crachá de identificação na blusa, mas Joseph não conseguia ler o que estava escrito. Ele a estudou sob a proteção dos densos cílios. Os olhos brilhavam com intensidade. Os lábios carnudos e vermelhos eram tentadores.

domingo, 8 de novembro de 2015

CAPÍTULO 77

Joseph
— Com licença Sr. Jonas. — A recepcionista do prédio onde trabalho me chama quando passo por ela logo no começo da manhã.
— Sim, Marilu?
— Ann...Tem uma mulher aqui que gostaria de falar com o senhor.
— Quem?
— Blanda Thompson, senhor. Ela tentou subir no seu andar, mas foi impedida pelos seguranças porque sua secretária disse que tinha ordens para não deixa-la subir, porém, não podemos impedi-la de ficar lhe esperando no saguão. — Ela me diz com um sorriso de desculpas.
— Entendi. Obrigada, Marilu. — Dou lhe um sorriso desanimado, meu dia já azedou.
Viro-me na direção do saguão onde vejo algumas pessoas em pé e algumas outras sentadas nos sofás de couro. Não demora muito e eu reconheço os cabelos negros de Blanda, solto um suspiro impaciente e vou em sua direção.
— O que você está fazendo aqui? — Paro na sua frente e tento perguntar com uma voz contida, mas é difícil disfarçar a raiva que sinto.
Ela levanta o olhar e um sorriso venenoso se espalha por seus lábios, ela levanta-se do sofá, deixando seu corpo muito próximo do meu. Dou um passo para trás, o que parece diverti-la ainda mais.
— Vim falar com você, docinho. — Deus, meu estômago embrulha toda vez que ela me chama assim. É impressionante como as coisas mudam, no passado ela costumava me excitar como nenhuma outra, agora ela me enoja como muitas outras.
— Você já se esqueceu da conversa que tivemos aquele dia no meu escritório? Eu não quero te ver nunca mais, Blanda.
— Como eu poderia me esquecer daquele dia? Do nosso beijo... — Ela diz com um sorriso dengoso, sua mão alisando meu terno.
— Não existe isso de ‘nosso’ beijo. Você me beijou a força e foi horrível.
— Você gostava tanto dos meus beijos antes. Principalmente quando eu te beijava aqui embaixo... — Ela diz escorregando sua mão em direção à braguilha da minha calça. Seguro sua mão com força e a afasto de mim. Olho para os lados para ver se alguém percebeu seu movimento ousado.
— Pare com isso, Blanda.
— Docinho, não precisa fingir que você não gosta disso.
— É mais do que não gostar, eu odeio isso, e eu te odeio. Você me lembra de um passado que eu luto diariamente para esquecer. — Por um breve momento vejo magoa passar por seus olhos, mas logo ela disfarça e aquele brilho impertinente retoma seu lugar.
— Muito bem, você definitivamente quer isso do jeito difícil, não é? Eu te dei todas as chances possíveis, Joseph, mas você insiste em me recusar, em me humilhar, como naquele dia no seu escritório. É, eu me lembro bem daquele dia, me lembro também que eu lhe fiz uma promessa, e eu sempre cumpro com o que eu prometo.
— Você já teve a sua vingança infantil, você prejudicou minha carreira, agora me deixe em paz.
— Agora quem parece que não se lembra daquele dia é você. Já se esqueceu do que eu te disse? Isso apenas começou Joseph, aquele contrato foi a primeira coisa que você perdeu.
— Você não pode mais me prejudicar. — Digo confiante, mas é apenas uma fachada, a verdade é que eu estou com medo. Medo porque Blanda está com aquele olhar determinado de quando ela quer algo e não há ninguém que possa impedi-la.
— Vamos ver o que eu posso fazer quanto a isso... — Ela diz remexendo em sua bolsa, olho curioso para ver o que ela procura. Ela sorri parecendo empolgada quando retira um celular da bolsa enorme que pende do seu antebraço.
Fico mais curioso ainda, descanso as mãos na cintura e olho impacientemente para Blanda.
— Diga-me Joseph, o que você acha que a sua namoradinha irá pensar quando ela ver... — Ela vira o celular na minha direção. — Isso. — Ela parece se deliciar com as palavras.
Olho a tela do celular, uma filmagem está passando. O ambiente é escuro e não consigo ver muita coisa, mas consigo distinguir vários corpos nus. Uma musica, tão alta que chega até meus ouvidos completamente distorcida, sai do aparelho que Blanda segura na altura do meu peito.
Quem está filmando está andando pelo que parece ser uma festa de swing, não sei por que meu corpo todo se arrepia, sinto meu coração batendo rapidamente e um nó em meu estômago se forma.
Algumas das pessoas dançam e outras fazem sexo, no sofá, no chão, em todo lugar. Começo a sentir um mal estar e sinto que estou suando frio.
A pessoa que filma anda, parece seguir por um caminho restrito, ela para em frente a uma porta e a abre, entra em um ambiente claro o suficiente para que eu veja que é um quarto. Com o barulho da musica alta abafada no quarto, os gemidos são audíveis. Uma sinfonia de gemidos sai do celular, estou tão horrorizado que não me importo se as pessoas mais próximas de nós também estão escutando o que parece o áudio de um filme porno. Ao se aproximar de uma cama, a filmagem mostra claramente dois homens e três mulheres. Quando reconheço o homem de joelhos na cama, comendo uma das mulheres que está de quatro com a cabeça enfiada no meio das pernas de uma segunda mulher, levo à mão a boca como se isso pudesse impelir a bile de subir. Sou eu nessa filmagem. Sou eu fodendo aquela mulher de quatro. De repente sinto um medo terrível, o que mesmo que Blanda disse, mostrar isso para Demetria?
Oh Deus não, ela não pode ver isso.
As coisas no vídeo começam a ficar mais ‘pesadas’, mas não consigo desviar o olhar, é como em um acidente de carro. Quando eu começo a fazer algo que eu não tenho coragem nem ao menos de falar, arranco o celular da mão de Blanda e pauso o vídeo. Olho para os lados e vejo algumas pessoas nos olhando com vergonha, curiosidade ou choque. É, acho que elas escutaram os gemidos obscenos. Pela expressão triunfante de Blanda, a minha reação era a que ela estava esperando.
— Como você conseguiu isso? — Minha voz não sai tão irritada quanto eu queria porque ainda estou muito abalado com a ideia de Demetria ver esse vídeo.
— Uma das festinhas que frequentávamos. Eu sabia que filmar você me serviria para alguma coisa algum dia.
Raiva, vergonha e medo começam a queimar dentro de mim, provocando uma chama muito perigosa. Aperto no botão de deletar, nunca mais quero ver essa filmagem na minha vida.
— Pode deletar, é claro que eu tenho outras copias. — Ela diz pegando o seu celular de volta.
— O que você quer? — Pergunto com os dentes cerrados, tenho medo de abrir a boca e acabar gritando com todas as minhas forças.
— Você ainda precisa perguntar? — Ela ri. — Eu quero você.
— Não acredito que você guardou durante todos esses anos esse vídeo, você é uma vadia louca, sabia?
Eu sabia que me seria útil em algum momento. E esse é o momento perfeito.
— Porque agora? Se você tinha isso com você todo esse tempo, porque me chantagear só agora?
— Porque antes não teria adiantado nada. Diga-me, se eu tivesse aparecido com esse vídeo alguns anos atrás, e tivesse ameaçado de mostrar para a sua família ou colocar na internet se você não ficasse comigo, o que você teria feito?
— Teria rido da sua cara. — Respondo sem pensar.
— Exatamente. Porque você não se importava com que os outros pensavam de você. Mas agora, você se importa, não é? Agora você está apaixonado e não quer que sua namoradinha veja com seus próprios olhos como você é pervertido, não quer que os pais dela vejam, estou certa ou não, Joseph? — Juro por Deus que o que eu mais quero no momento é tirar seu sorriso de vitória aos socos. Mas calma, Joseph, você não bate em mulheres, mesmo nas vadias como Blanda. E você está no seu emprego, se acalme. Fecho os olhos e respiro fundo, tentando controlar esse mar de diferentes emoções que se agita dentro de mim.
— Eu não sei o que você quer que eu diga. — Digo sentindo aquele sentimento horrível de impotência. Ela está certa, não posso conceber a ideia de Demetria ver esse vídeo. Uma coisa é falarem para ela o que eu fazia, outra bem diferente é ela ver com seus próprios olhos.
Eu não suportaria se ela desistisse de mim, se decidisse que eu não valho a pena, se ela percebesse que o meu passado é um fardo pesado demais para se carregar.
— Eu quero... — Ela guarda o celular e pega um pedaço de papel. — Que você me encontre nesse endereço, sexta às 21 horas.
Ela me entrega o papel, que vejo se tratar de um dos seus cartões de visita, com um endereço rabiscado em sua letra.
— Se você não estiver lá às 21 horas em ponto, eu vou fazer com que Demetria e toda a sua família vejam aquele filmagem. A decisão é sua. Até logo, docinho. — Ela se inclina e beija meu rosto. Estou tão aturdido que não reajo a sua aproximação, encaro-a fixamente enquanto se afasta e vai embora. Quando ela está fora do meu campo de visão sinto como se uma tonelada estivesse sobre meus ombros, me empurrando para baixo, sento-me no sofá e esfrego meu rosto com força onde ela me beijou. Sinto tanto nojo, como eu nunca senti antes em toda a minha vida.
“Deus, como eu pude me envolver com alguém como ela? Onde eu estava com a cabeça?”
Observo com pesar o cartão em minha mão. Não posso ceder e ir encontrar com Blanda, mas também não posso deixar Demetria ver aquelas cenas nojentas.
Ela é tão inocente, tão pura, tão delicada, não posso a expor a esse tipo de coisa. Ah meu Deus, o que eu faço?
Descanso a cabeça no sofá, encarando o teto decorado a cima de mim e tentando controlar o embrulho em meu estômago.


CAPÍTULO 76


Demetria
Termino de almoçar e me encaminho para meu dormitório. Tenho uma prova difícil daqui a dois dias e tenho que usar todo o tempo vago que tenho para estudar para ela. Caminho pelo campus distraidamente. Chego ao meu prédio e subo as escadas lentamente, quando viro em meu corredor, levo um susto com a quantidade de flores que estão na frente da minha porta. Chego bem na hora em que Joseph está amarrando vários balões em formato de coração na maçaneta da minha porta.
Joseph? — Ele se assusta quando o chamo, mas sorri assim que me vê.
— Ah, oi amor. Como foram as aulas essa manhã?
— Bem, obrigada...Ann, Joseph, porque o meu corredor está parecendo uma floricultura? — Pergunto me aproximando dele, ainda encarando os diversos vasos e buquês de flores espalhados pelo chão. Têm rosas brancas e vermelhas, margaridas, tulipas coloridas e flores do campo. Sorrio ao perceber um ursinho grande no meio de todas essas flores, ele segura um coração que diz “eu só tenho olhos para você”.
Joseph se aproxima e laça minha cintura, me puxando para junto de si. Ele segura meu pescoço e junta sua boca com a minha. Me dá um beijo tão apaixonado, tão cheio de amor que eu me esqueço de tudo o que vem me atormentando desde aquele jantar maldito. Esqueço-me sobre o tal beijo entre ele e Blanda – o qual eu ainda não tive coragem de questiona-lo – esqueço-me de todas as mulheres com quem ele já esteve, esqueço-me de tudo que é ruim. Nesse momento só existe Joseph e eu. Quando ele se afasta estou ofegante e com os joelhos fracos. Só ele para ser capaz de me fazer sentir isso apenas com um beijo.
— Uma vez eu te disse que nunca poderia te dar flores e balões. Eu só queria que...Queria que você soubesse que eu mudei. — Ele diz e eu sinto meu coração inchar, tanto que eu acho que vai explodir.
— Ah, Joseph. — Digo sorrindo e acariciando seu rosto.
— Eu te amo Demetria, e pretendo me comportar como o idiota apaixonado que sou. Vou te dar flores, balões, ursinhos e tudo o que você quiser. Qualquer coisa para te provar que eu mudei e que eu te amo com todas as minhas forças.
Ele segura a mão que acariciava seu rosto e lhe dá um beijo.
Joseph, por favor, me leve para dentro daquele apartamento e faça amor comigo. — Peço em um sussurro.
— Tudo o que você quiser, minha linda, tudo o que você quiser.

Demetria, você pode levar isso lá para fora e colocar na mesa? — Mamãe pede.
— Claro. — Pego a travessa de vidro e me encaminho para a grande mesa com bancos de madeira que foi colocada atrás da casa, ao ar livre.
Hoje é domingo e decidimos fazer um grande almoço em família. Os  Lovatos e os Jonas, todos reunidos para um farto almoço junto das pessoas que amamos.
Papai está sentado na varanda bebendo cerveja com Ian. Sunny está com Wilmer – já o consideramos parta da família – e eu, mamãe e Nina estamos terminando de arrumar a mesa. Denise, Paul, Joseph, Nick e Selena ainda não chegaram. Estou colocando a travessa de salada de batatas na mesa quando escuto o barulho de rodas nos cascalhos na frente da casa.
Joseph.
Sorrio e saio correndo para recebê-lo.
Quando chego à frente da casa e vejo Harry saindo do carro, congelo no lugar. Não pode ser, eu devo estar imaginando. Que diabo ele está fazendo aqui?
Harry, o que você pensa que está fazendo aqui? — Pergunto furiosa enquanto me aproximo de seu carro. Não acredito que ele teve a cara de pau de vir até a minha casa.
— Você deve ir embora, agora. — Digo olhando-o severamente.
— Ele não vai a lugar algum, ele é meu convidado. — Escuto a voz de Ian atrás de mim.
— Como é que é? — Viro-me olhando chocada. Eu só posso ter entendido errado.
— Eu o convidei. — Ian repete.
— Como assim você o convidou, você está louco? — Ian se aproxima sem se deixar abalar pelo olhar fulminante que estou lançando para ele.
— Vocês me obrigam a ter que aceitar que aquele filho da mãe que você chama de namorado se sente na mesma mesa que eu. Então ele vai ter que aceitar que o meu convidado se sente nela também.
— Você não pode fazer isso. Isso aqui é um almoço de família. — Digo histérica.
— Eu tinha pedido para papai e mamãe se eu podia convidar um amigo, eles permitiram.
— Mas aposto que eles não sabiam que era Harry, não é? E desde quando você o considera um amigo? Você sempre o odiou, você só está fazendo isso para provocar Joseph. — Digo dando com o dedo em seu peito.
— Não importa meus motivos, ele é meu convidado e ele fica. — Ele volta seu olhar para Harry, que assiste nossa discussão quieto. — O pessoal está lá atrás, pode ir até lá Harry, sirva-se de cerveja e o que você quiser, fique à vontade.
— Obrigado, Ian. — Harry diz e se dirige para a parte dos fundos da casa, eu apenas o olho se afastar com a boca aberta, ainda não acreditando no que Ian está fazendo.
Não posso acreditar que ele esteja agindo dessa maneira. Meu Deus, alguém abduziu meu irmão e colocou esse clone incrivelmente idiota no lugar?
— Você tem que falar para ele ir embora, agora. — Emprego o máximo de autoridade na voz que consigo.
— Não. Ele fica.
— Porque você está agindo dessa maneira? Você não acha que deveria estar mais preocupado com a cirurgia da sua mulher do que agir como uma criança?
— Eu estou preocupada com ela, e estou cuidando para que ela tenha tudo o que precisa. Não precisa se preocupar.
— Ian, por favor. Você sempre odiou Harry.
— Eu não vou mudar de ideia, Demetria. — Ele diz se afastando.
Harry me traiu. — Digo e ele para. — Foi por isso que eu terminei com ele, porque eu o peguei na cama com a minha colega de quarto. — Vejo raiva passar por seus olhos.
— E ele já tinha me traído antes disso também. Eu odeio ele, Ian. Você convidou um cara que me fez sofrer, para perturbar um cara que me ama de verdade e só tem me feito feliz.
Ele me olha, mas não diz nada.
— Por favor, faça Harry ir embora antes que Joseph chegue. Pare de ser tão hostil, tão teimoso e tão infantil. Todos têm agido como adultos com relação à Joseph e eu, menos você. Você tem agido como uma criança mimada que está emburrada porque as coisas não saíram como queria.
— Ele fica. — Ele diz teimosamente.
— Eu vou falar com papai, ele vai fazer Harry ir embora. — Ameaço.
— Ele não vai expulsar um convidado meu.
— Eu não vou mais falar com você, você já magoou demais Joseph. Ele é seu amigo e está sofrendo com todo esse seu ódio, aí você pega e convida aquele cara para uma reunião de família, uma tarde que era para ser cheia de alegria, só porque você é egoísta e quer machucar o homem que eu amo. Eu não vou te perdoar por isso, esse não é o Ianque eu amo e admiro. — Digo magoada com sua atitude irracional e vou em direção aos fundos da casa.
Chegando lá vejo Harry com uma cerveja na mão, sozinho em um canto, olhando para os lados parecendo desconfortável.
Papai me olha com um olhar de desculpas, mamãe e Nina estão fingindo que tudo está perfeitamente bem e Sunny me olha confusa assim que entro em seu campo de visão.
Caminho determinada até Harry.
— Você tem que ir embora. Agora.
— Seu irmão me convidou, tenho o direito de estar aqui.
— Você não tem direito nenhum. — Digo elevando a voz. — Você sabe que ninguém te quer aqui, nem mesmo Ian, ele te convidou só para provocar Joseph.
— Sabe, eu não gostava do seu irmão tanto quanto ele não gostava de mim, mas depois que eu fiquei sabendo que ele deu uma bela de uma surra no seu namoradinho, acho que ele até que é um cara bem legal.
— Como é que você...Esquece. Você é um idiota, não acredito que eu cheguei mesmo a amar você. — Vejo seu rosto murchar e magoa passar pelo seu olhar. Poderia até sentir pena dele, se ele não fosse um idiota traidor.
— Você quer mesmo ficar em um lugar que você sabe não ser bem vindo?
— Eu quero ficar no mesmo lugar que você, não importa onde isso seja. — Ele diz dando um passo em minha direção e colocando sua mão em meu rosto, que eu rapidamente retiro.
Harry, só vai embora, por favor.
— Eu te amo, Demi.
— Eu não te amo mais, Harry.
— Eu posso fazer você voltar a amar.
— Não, não pode. Entenda isso de uma vez por todos e pare de agir como um perseguidor, vá viver sua vida.
— Eu não consigo tirar você da minha cabeça, eu penso em você o tempo todo. Eu sei o quanto eu te machuquei, eu sei o quanto eu fui um filho da puta, mas se você pudesse me dar só mais uma chance...
— Não, Harry não dá. Eu amo o Joseph, estou completamente apaixonada por ele, não quero mais ninguém além dele. E se você me ama tanto quanto você diz, você vai embora agora.
Ele me olha tristemente, leva sua mão até meus cabelos e os acaricia.
— Você não está sendo justa, você sabe que eu te amo de verdade.
— Então vá embora, agora.
Ele toma um gole da sua cerveja e deixa a garrafa na mesa.
— Tudo bem, eu vou, para mostrar que eu te amo. Me leve até o meu carro.
— Tudo bem. — Digo revirando os olhos e o acompanho de má vontade.
— Tchau. — Digo quando chegamos ao seu carro e me viro para voltar para minha família.
— Espera. — Ele segura meu braço.
— O que foi?
— Pelo menos me de um beijo de despedida.
— Então você vai parar de enrolar e vai embora? — Pergunto.
— Vou, prometo. — Solto um grunhido impaciente. Minha intenção é lhe dar apenas um beijo rápido na bochecha, mas quando meus lábios encostam-se na sua pele, ele me abraça e segura minha nuca. Vira o rosto e faz com que nossos lábios se encontrem, tudo em um movimento rápido demais para que eu possa reagir.
Sua língua tenta invadir minha boca e eu a mordo, fazendo-o me soltar e falar um palavrão enquanto leva a mão até a boca.
— Seu idiota, vá embora e não me procure mais. — Suas mãos seguram meus braços e ele me puxa com força para junto de si, nossas bocas separadas por poucos centímetros.
— Você não pode fazer ou dizer nada para que eu desista de você.
— Mas eu posso. — Escuto a voz grave de Joseph e me viro em sua direção. Ele está a poucos metros de nós e escutou tudo, Nick e Selena estão logo atrás dele.
— Largue a minha namorada, agora. — Ele diz com uma voz assustadora. Harry me solta e encara Joseph com um olhar arrogante.
— Sua por pouco tempo. — Ele diz sorrindo. Joseph quebra a distância com dois passos largos e agarra Harry pela camisa.
“Oh não! Meu Deus, porque Joseph tem sempre que se meter em alguma briga?”
— Se você chegar perto dela de novo, se você falar com ela ou olhar para ela, eu vou atrás de você, entendeu? — Joseph diz numa voz sombria. Nick se aproxima do irmão cauteloso, pronto para apartar uma briga se necessário.
— E eu vou estar te esperando.
Joseph. — Chamo-o e coloco uma mão em seu braço, ele me olha e suaviza a expressão imediatamente.
— Solte-o. — Peço e ele larga Harry no mesmo instante, dando um passo para trás e me puxando para perto de si, envolvendo meus ombros com seu braço.
— Saia daqui, antes que eu perca a paciência com você.
— Tudo bem, já estou de saída, mas por que ela pediu e não porque você quer. — Harry abre a porta do carro, mas antes de entrar se vira para mim.
— O que nós tínhamos era especial demais para você me esquecer tão facilmente...
— Humpf. — Bufo e solto uma risada sem humor nenhum. — Esquecer você foi tudo, menos fácil.
— Eu sei que em algum lugar aí no fundo você ainda me ama. Você vai voltar a ser minha, nossa história não acabou, Demi.
— Filho da... — Joseph parte para cima de Harry, mas eu o seguro a tempo.
— Por favor, Joseph. Não aqui. — Ele me ouve e recua, Harry entra no carro.
— Até depois, minha linda. — Harry diz e arranca com o carro.
— Filho da mãe. Quem ele pensa que é para te chamar de Demi, de minha linda? Deus, eu quero matar esse pedaço de merda. — Joseph diz vermelho de raiva.
— Calma, cara. — Nick diz colocando a mão em seu ombro.
— Calma nada, eu vou acabar com ele isso sim. O que ele estava fazendo aqui? Porque você deixou ele chegar tão perto? — Joseph diz redirecionando sua raiva para mim.
— Hey, calma. Foi Ian quem convidou Harry.
— Ian? — Selena pergunta confusa.
— É, ele o convidou só para provocar Joseph.
— Mas Ian não odiava Harry?
— Pelo jeito ele me odeia mais. — Joseph diz encarando o chão, a raiva em sua voz sumiu e foi substituída por magoa.
Ele não olha para ninguém e vai em direção a casa, sumindo pela porta da frente.
— Droga, eu vou atrás dele. — Digo e saio correndo para dentro.
Joseph, espere. — Ele para e se vira, com as mãos na cintura. — O que foi?
— Não fique assim, por favor.
— Como você quer que eu fique? Eu chego aqui e vejo a minha namorada nos braços do ex e ainda por cima descubro que o meu melhor amigo me odeia ao ponto de convida-lo apenas para me atingir.
— Eu não estava nos braços de Harry.
— Estava sim, vocês estavam quase se beijando. — Obviamente agora não é uma boa hora para admitir que Harry me beijou.
— Amor...
— Acho melhor eu ir embora. — Ele diz.
— Não, não fale besteira. Não deixe que os idiotas do Harry e do Ian estraguem nosso dia. Vamos mostrar para Ian que não há nada que possa nos separar, que estamos felizes juntos e que nos amamos.
— Não posso acreditar que ele me odeie tanto assim. — Joseph diz passando a mão pelos cabelos.
— Uma hora ou outra ela vai acabar entendendo. E mesmo que ele não entenda, isso não vai nos separar. Eu não vou permitir que Ian nos atrapalhe, a partir de hoje não vou mais falar com ele, agora sou eu quem vou ignora-lo.
— Não quero que você se afaste do seu irmão por minha causa.
— Não é por sua causa, é por causa dele mesmo. Ele que tem agido como um idiota.
— Chamar Harry não foi a primeira coisa que ele fez, foi? Ele tem feito outras coisas que você não me contou, não é?
Joseph...Deixa isso para lá, não importa.
— Importa para mim, o que ele tem feito? Ele tem te tratado mal?
— Não exatamente.
— Então o que é?
— Ele tem tentado me convencer a te deixar, ele tem...Ele fica me contanto coisas.
— Que tipo de coisas? — Ele pergunta com um leve tom de desespero na voz.
— Coisas que você fez no passado, com outras mulheres. Ele fica me dizendo que você é nojento e que eu mereço coisa melhor. Ele me contou sobre as festas de troca de casais que você deu no apartamento que vocês dividiam na faculdade, sobre as vezes que ele pegou você com mais de uma mulher transando na sala, das vezes que ele não conseguia dormir por causa dos gemidos. E da vez que...Da vez que você transou com um homem. — Assim que digo isso Joseph fica branco como papel e rapidamente desvia o olhar, com vergonha. Ele se vira, ficando de costas para mim.
— Eu estava bêbado, foi só uma vez.
— Eu não estou julgando, Joseph.
— Eu sinto muito que tudo isso seja verdade.
Joseph, olhe para mim. — Peço e ele balança a cabeça em negativa.
— Tenho muita vergonha de tudo o que eu fiz.
— Não tenha, por favor, olhe para mim. — Ele lentamente se vira, quando vejo as lágrimas escorrendo de seus lindos olhos, sinto uma vontade enorme de chutar a bunda de Ian. Definitivamente eu não estou mais falando com ele.
— Ele tem razão, você merece coisa melhor.
— Hey, não fale uma coisa dessas. — Digo abraçando-o. — Eu não gosto nem um pouco do seu passado, não vou mentir. Odeio que você tenha estado com tantas outras pessoas, mas seu passado faz parte de quem você é agora, e eu te amo. — Ele me abraça forte.
— Se eu soubesse...Se eu soubesse que iria encontrar esse sentimento tão puro e bonito, o nosso amor, eu teria feito tudo diferente. Não teria encostado em nenhuma outra mulher, teria esperado por você.
— Queria ter esperado por você também. — Digo.
— Só de imaginar que você já dormiu com outro homem, me deixa cego de ciúmes, mesmo tendo sido apenas um. Não posso nem imaginar como você se sente sabendo de tudo o que eu fiz. Sinto muito meu amor, que você tenha que aguentar isso.
— Não quero mais falar sobre isso, por favor. Vamos esquecer tudo isso, pelo menos por hoje, vamos fingir que nada disso com Harry aconteceu e vamos aproveitar o dia juntos.
— O que você quiser, meu amor. Mas eu não vou me esquecer dele, se Harry chegar perto de você de novo, não vai ter nada que vá conseguir me impedir de dar uma lição nele. E com relação à Ian, eu também não vou permitir que ele continue te envenenando contra mim. Ele não quer aceitar nosso namoro, muito bem então, mas ele não tem o direito de tentar atrapalha-lo.
— Não vamos deixar ele nos atrapalhar. — Digo.
— Não vamos deixar ninguém nos atrapalhar, promete?
— Prometo. — Respondo.
— Ótimo, eu prometo também. Vamos permanecer firmes, meu amor, e juntos. Haja o que houver.