terça-feira, 25 de março de 2014

Amigas Para Sempre Capítulo 19

Parte Três
Os anos 1990
“I’m Every Woman”
Está tudo dentro de mim
Dezenove
Faça eu apagar. É sério. Se não me derem anestesia, bata em mim com um
taco de beisebol. Esta história de respiração é balela… aaaaargh! Sel sentiu a dor a revirando por dentro, como se fosse rasgá-la.
Ao seu lado, Nicholas estava dizendo:
– Vamos lá… puxe o ar… você consegue. Inspira… expira… assim. Lembra das aulas? Foco. Visualize. Quer aquela estátua que a gente… Ela o agarrou pelo colarinho e o puxou para perto.
– Eu juro por Deus que se você falar em respirar de novo eu vou bater em você. Eu quero anestesia…
E a dor voltou, apertando, rasgando, torcendo, até ela gritar. Durante as primeiras seis horas, ela ficara muito bem. Mantivera o foco, respirava ritmadamente, beijava o marido quando ele se aproximava e lhe agradecia quando ele punha uma compressa úmida em sua testa. Durante o segundo período de seis horas, perdera seu otimismo natural. A dor implacável e torturante era como uma criatura terrível atacando-a, arrancando cada vez mais dela, deixando cada vez menos para trás.
Ao fim da décima sétima hora, ela havia se transformado na pessoa mais mal-humorada do mundo. Até a enfermeira fugia do quarto às pressas.
– Vamos lá, querida, respire. É tarde demais para tomar anestesia. Você ouviu o médico. Não falta muito.
Sel percebeu que mesmo enquanto tentava acalmá-la, Nicholas não chegava muito perto. Estava parecendo um soldado apavorado num campo minado que havia acabado de ver o melhor amigo explodir. Estava com medo até de se mexer.
– Onde está a mamãe?
– Acho que ela desceu para ligar para a Demi de novo.
Sel tentou se concentrar na respiração, mas isso não ajudou. A dor estava aumentando de novo. Ela se agarrou às grades da cama com as mãos suadas.
– Me… dê… um… pouco… de… gelo!
Teria sido engraçado ver Nicholas sair correndo pela porta, se ela não estivesse se sentindo aquela menina nadando sozinha em Tubarão. A porta do quarto abriu-se com um estrondo.
– Ouvi dizer que tem uma megera fazendo escândalo aqui.
Sel tentou sorrir, mas outra contração estava vindo.
– Eu… não… quero… mais… fazer… isso.
– Mudou de ideia? Que timing perfeito.
Demi foi para o outro lado da cama.
A dor começou de novo.
– Grite – disse Demi, acariciando sua testa.
– Eu… preciso… respirar.
– Foda-se esse negócio de respirar. Grite.
Sel então gritou, e a sensação foi boa. Quando a dor diminuiu de novo, ela
riu fraquinho.
– Imagino que seja contra Lamaze.
– Eu não diria que sou o tipo de garota que defende o parto natural – explicou Demi, e olhou para a barriga inchada e o rosto pálido e suado de Sel. – Naturalmente, este é o melhor comercial de controle de natalidade que eu já vi. De agora em diante, vou começar a usar três camisinhas por vez. Demi sorriu, mas havia preocupação em seus olhos. – Você está bem mesmo? Devo chamar o médico?
Sel sacudiu ligeiramente a cabeça.
– Só converse comigo. Me distraia.
– Eu conheci um cara. Passamos a maior parte do último fim de semana juntos. O sexo foi muito bom.
– Qual o nome dele?
– Claro que essa seria a sua pergunta. Sterling. E antes que você comece a fazer um monte de perguntas da Cosmopolitan do tipo como-conhecer-bemseu-homem, vou dizer que eu não sei absolutamente nada a respeito dele, exceto que ele beija como um deus e trepa como um diabo. Mais uma contração. Sel arqueou as costas e gritou de novo. Ao longe, podia ouvir a voz de Demi e sentir a amiga acariciando sua testa, mas a dor foi tão forte que ela não conseguiu fazer nada além de arfar.
– Merda! – disse ela quando passou. – A próxima vez que o Nicholas chegar
perto de mim, vou dar um soco nele.
– Era você quem queria um bebê.
– Vou arrumar outra melhor amiga. Preciso de alguém com uma memória mais curta.
– Eu tenho memória curta. Ah… Saí com um cara que é perfeito para mim.
– Por quê? – disse Sel, arfando.
– Ele mora em Londres. Só nos vemos de vez em quando, e para fazer um
sexo arrasador, devo acrescentar…
– Foi por isso que não atendeu quando a mamãe ligou?
– A gente estava no meio da coisa, mas, assim que terminamos, eu comecei
a fazer as malas.
– Bom saber que você tem… ah, merda… prioridades.
Sel estava no meio de mais uma contração quando a porta do quarto se abriu de novo. A enfermeira entrou primeiro, seguida de Nicholas e da mãe de Sel. Demi recuou, deixando os demais se aproximarem. A certa altura, a enfermeira conferiu o colo do útero de Sel e chamou o médico. Ele invadiu o
quarto, sorrindo como se tivesse cruzado com ela no supermercado, e vestiu
luvas para examiná-la. Então retirou o apoio que sustentava suas pernas e disse que estava na hora.
– Faça força – mandou o médico, com uma voz completamente razoável e sem dor, que deixou Sel com vontade de arrancar os olhos dele. Ela gritou e fez força e chorou até que, com a rapidez com que havia começado, a agonia terminou.
– Uma menininha perfeita – anunciou o médico. – Papai, quer cortar o cordão umbilical?
Sel tentou se levantar, mas estava fraca demais. Instantes depois, Nicholas
estava ao seu lado, dando a ela um embrulho minúsculo, enrolado em um tecido cor-de-rosa. Pegou a filha nos braços e olhou para o rostinho em forma de coração. Ela tinha um monte de cabelos pretos, a pele clarinha da mãe e a boca mais perfeita que Sel já vira. O amor que explodiu dentro dela foi grande demais para descrever.
– Oi, Marah Devonne – sussurrou, segurando o punho do tamanho de uma uva
da filha. – Bem-vinda, filhinha.
Quando olhou para Nicholas, ele estava chorando. Então se abaixou e lhe deu um beijo suave como o bater das asas de uma borboleta.
– Eu te amo, Selly.
Nunca tudo estivera tão perfeito em seu mundo. E ela sabia que, o que quer que acontecesse, o que quer que a vida tivesse reservado para ela, sempre se lembraria daquele único e brilhante instante como seu pedaço de céu.
Demi implorou por mais dois dias de folga do trabalho para que pudesse ajudar Sel em casa. Quando fizera a ligação, parecera algo inquestionavelmente vital. Mas agora, apenas algumas horas depois de Sel e Marah receberem alta, Demi via a verdade. Ela era tão útil quanto um microfone desligado. A Sra. Gomez parecia uma máquina. Alimentava Sel antes que a amiga sequer mencionasse estar com fome. Trocava as fraldas minúsculas da bebê como num passe de mágica. E ensinou Sel a amamentar a filha. Aparentemente, isso não era algo instintivo, como Demi imaginara. E qual era a sua contribuição? Quando tinha sorte, fazia Sel rir. Na maioria das vezes, porém, a melhor amiga apenas suspirava, parecendo ao mesmo tempo impressionantemente apaixonada pela filha e profundamente cansada. Naquele momento, Sel estava deitada na cama, com a bebê no colo.
– Ela não é linda?
Demi olhou para o embrulhinho cor-de-rosa.
– É mesmo.
Sel acariciou o rostinho minúsculo da filha, sorrindo para ela.
– É melhor você ir embora, Demi. De verdade. Volte quando eu estiver animada.
Demi tentou não deixar o alívio transparecer.
– Estão mesmo precisando de mim por lá. As coisas devem estar um caos sem a minha presença.
Sel sorriu de forma compreensiva.
– Eu não teria conseguido sem você, sabia?
– É mesmo?
– É mesmo. Agora dê um beijo na sua afilhada e volte ao trabalho.
– Eu voltarei para o batizado.
Demi se abaixou e beijou a bochecha aveludada de Marah, depois a testa de
Sel. Quando sussurrou sua despedida e chegou à porta, Sel parecia ter se esquecido completamente dela.
Lá embaixo, encontrou Nicholas atirado numa cadeira ao lado da lareira, tomando uma cerveja. Estava muito descabelado, com a camiseta ao contrário e meias de pares diferentes. Estava tomando cerveja às onze da manhã.
– Você está um horror – disse ela, sentando ao lado dele.
– Ela acordou de hora em hora esta noite. Eu dormia melhor em El Salvador
– falou, e tomou um gole. – Mas ela é linda, não é?
– Maravilhosa.
– Selly quer se mudar para o subúrbio agora. Acabou de se dar conta de que esta casa é cercada por água, então agora vamos nos mudar para algum bairro onde vendam bolos e façam encontros de crianças. Você consegue me imaginar em Bellevue ou Kirkland, com todos aqueles yuppies?
O curioso era que ela conseguia.
– E o trabalho?
– Vou voltar a trabalhar na KILO. Vou produzir reportagens internacionais
e de política.
– Isso não combina com você.
Nicholas pareceu surpreso com a resposta. Quando ele olhou para Demi, ela
viu um relance de lembrança: ela o fizera lembrar do passado deles.
– Eu tenho 35 anos, Dem. Tenho mulher e filha. Vou ter que ser feliz com
coisas diferentes.
Demi não pôde deixar de notar que ele disse “vou”.
– Mas você adora campos de batalha, tiros de morteiro e pessoas atirando em você. Nós dois sabemos que você não pode abrir mão disso para sempre.
– Você só acha que me conhece, Demi. Não somos o que se chamaria de
confidentes.
Ela lembrou de repente, enfaticamente, o que deveria esquecer.
– Você tentou.
– Tentei – concordou ele.
– Selly iria querer que você fosse feliz. Você mataria a pau na CNN.
– Em Atlanta? – riu ele. – Um dia você vai entender.
– Quer dizer quando eu me casar e tiver filhos?
– Quero dizer quando se apaixonar. Isso muda a gente.
– Como mudou você? Um dia eu vou ter um filho e querer escrever para o
Queen Anne Bee de novo, é isso?
– Você precisaria se apaixonar antes, não?
Nicholas olhou para ela de uma maneira tão compreensiva, tão inteligente, que Demi se sentiu incomodada. Não era a única pessoa que estava se lembrando do passado.
Demi se levantou.
– Preciso voltar para Manhattan. Sabe como são as notícias. Nunca param.
Nicholas largou a cerveja e se levantou, indo na direção dela.
– Faça isso por mim, Demi. Cubra o mundo.
Pareceu triste, a forma como ele disse aquilo. Demi não entendeu se o que havia escutado em sua voz era arrependimento por si mesmo ou tristeza por ela.
Ela se obrigou a sorrir.
– Pode deixar.
Duas semanas depois de Demi voltar de Seattle, uma tempestade cobriu Manhattan de neve e paralisou a cidade frenética. Ao menos por algumas horas.
Os carros desapareceram quase que imediatamente. A neve branquíssima
cobriu as ruas e calçadas, transformando o Central Park num paraíso de inverno.
Ainda assim, Demi chegou ao trabalho às quatro da manhã. Em seu apartamento gelado sem elevador, com o radiador da calefação fazendo barulho e gelo cobrindo as antigas janelas de vidro 􀙼no, ela vestiu meia-calça, jeans, botas de neve e dois suéteres. Cobriu tudo com um casaco de lã azul-marinho e complementou com luvas cinza. Então saiu para enfrentar a intempérie. Inclinava o corpo contra o vento enquanto caminhava pela rua. A neve prejudicava sua visão e lhe queimava o rosto. Ela não se importou. Gostava tanto do trabalho que faria de tudo para chegar lá cedo.
No saguão do prédio, bateu a neve das botas, apresentou-se na recepção e subiu. Quase imediatamente percebeu que a maior parte da equipe não chegara.
Apenas um grupo mínimo estava lá.
Em sua mesa, começou logo a trabalhar na pauta que havia recebido no dia anterior. Estava fazendo pesquisa sobre a controvérsia em torno da coruja pintada no Noroeste. Determinada a incluir um ponto de vista diferente na
matéria, estava lendo tudo o que podia encontrar – relatórios de subcomissões do Senado, descobertas ambientais, estatísticas econômicas sobre madeireiras, a fecundidade de florestas de mata nativa.
– Você está trabalhando pesado.
Demi ergueu o olhar de repente. Estava tão absorta na leitura que não havia
escutado ninguém se aproximando da sua mesa.
E não era qualquer um.
Edna Guber, usando um terninho de gabardine preto feito por algum estilista famoso, estava parada ao seu lado, fumando um cigarro. Olhos cinza atentos a encaravam de debaixo de uma franja preta reta estilo Anna Wintour. Edna era famosa no jornalismo, uma daquelas mulheres que percorreram ferozmente o caminho até o topo numa época em que outras pessoas do mesmo sexo não conseguiam entrar pela porta da frente a menos que fossem boas secretárias. Edna – apenas o primeiro nome era usado ou necessário – era conhecida por ter uma agenda com os telefones residenciais de todo mundo, de Fidel Castro a Clint Eastwood. Supostamente, não havia entrevista que ela não pudesse conseguir e lugar no mundo aonde ela não iria para encontrar o que quisesse.
– O gato comeu sua língua? – disse ela, exalando fumaça.
Demi ficou de pé num salto.
– Sinto muito, Edna. Sra. Guber. Senhora.
– Detesto quando as pessoas me chamam de senhora. Fico me sentindo velha. Você me acha velha?
– Não, s…
– Ótimo. Como você chegou aqui? Os táxis e ônibus estão uma merda hoje.
– Eu vim a pé.
– Nome?
– Demi Lovato. Demetria.
Edna estreitou os olhos. Olhou Demi firmemente de cima a baixo.
– Me siga.
Deu meia-volta no salto da bota preta e marchou pelo corredor, a caminho da sala no canto do prédio.
Caramba.
O coração de Demi disparou. Ela nunca havia sido convidada para aquela sala, nunca sequer havia conhecido Maury Stein, o mandachuva do programa matinal.
A sala era imensa, com duas paredes de janelas, através das quais a neve caindo tornava tudo cinza, branco e sombrio. Era mais ou menos como estar
dentro de um globo de neve, olhando para fora.
– Esta aqui vai servir – falou Edna, fazendo sinal para Demi com a cabeça.
Maury ergueu o olhar do que estava fazendo. Mal viu Demi, mas assentiu.
– Ótimo.
Edna saiu da sala.
Demi ficou lá parada, confusa. Então ouviu Edna dizer:
– Está tendo um ataque epilético ou entrou em coma?
Demi a seguiu até o corredor.
– Tem papel e caneta?
– Tenho.
– Não precisa responder, só faça o que eu pedir, e rápido.
Demi pegou uma caneta do bolso e um pedaço de papel de cima de uma
mesa próxima.
– Pronto.
– Em primeiro lugar, quero um relatório detalhado da eleição na Nicarágua.
Você sabe o que está acontecendo por lá?
– Claro – mentiu Demi.
– Quero que saiba tudo sobre os sandinistas, a política de Bush para a Nicarágua, o bloqueio, as pessoas que moram lá. Quero saber quando Violeta Chamorro perdeu a virgindade. E você tem doze dias para isso.
– Sim…
Demi evitou dizer “senhora” bem a tempo. Edna parou em frente à mesa de
Demi.
– Você tem passaporte?
– Tenho. Precisei fazer um quando me contrataram.
– É claro. Nós vamos viajar no dia 16. Antes de irmos…
– Nós?
– Por que diabos você acha que estou falando com você? Tem algum problema com isso?
– Não. Nenhum problema. Obrigada. Eu realmente…
– Vamos precisar tomar vacinas. Chame um médico aqui para cuidar de nós
e da equipe. Então pode começar a marcar entrevistas. Entendeu? – falou, e
olhou para o relógio de pulso. – O fuso horário de lá tem uma hora a menos.
Fale comigo na sexta-feira, digamos, às cinco da manhã?
– Vou começar agora mesmo. E obrigada, Edna.
– Não me agradeça, Lovato. Apenas faça o seu trabalho… e faça melhor do
que qualquer outra pessoa faria.
– Pode deixar.
Demi voltou para a mesa e tirou o telefone do gancho. Antes de terminar de
discar o número, Edna não estava mais por perto.
– Alô? – disse Sel, com a voz grogue.
Demi olhou para o relógio. Eram nove horas. O que significava que eram
seis da manhã em Seattle.
– Oops. Errei de novo. Desculpe.
– A sua afilhada não dorme. O sono dela é uma anomalia. Posso ligar de
volta em algumas horas?
– Na verdade, estou ligando para falar com o Nicholas.
– O Nicholas?
No silêncio que antecedera a pergunta, Demi ouvira um bebê começar a
chorar.
– Edna Guber está me mandando para a Nicarágua. Quero fazer algumas
perguntas a ele.
– Só um instante.
Sel passou o telefone. Houve um barulho como papel sendo amassado,
uma porção de sussurros, e então Nicholas atendeu.
– Oi, Demi, que bom para você. A Edna é uma lenda.
– É a minha grande chance, Nicholas, e eu não quero estragar. Pensei em
começar pegando informações com você.
– Eu não durmo há um mês, então não sei quanto ainda restou da minha mente, mas vou fazer o possível – falou Nicholas, e parou um instante para pensar. – Você sabe que é perigoso lá, né? Um verdadeiro barril de pólvora.
Tem gente morrendo.
– Você parece preocupado comigo.
– Claro que estou preocupado. Agora, vamos começar com a história importante. Em 1960 ou 1961, a Frente Sandinista de Libertação Nacional, ou FSLN, foi fundada…
Demi foi anotando o mais rápido que podia.
Por pouco menos de duas semanas, Demi trabalhou como nunca. Durante dezoito, vinte horas por dia, lia, escrevia, fazia telefonemas, marcava entrevistas. Nas poucas e raras horas em que não estava trabalhando ou tentando dormir, ia ao tipo de lojas a que jamais fora – lojas de camping, de
suprimentos militares e coisas do gênero. Comprou canivetes, chapéus de safari e botas de caminhada. Tudo e qualquer coisa em que podia pensar. Se estivesse no meio da selva e Edna quisesse um maldito mata-moscas, Demi teria um. Quando efetivamente partiram, ela estava nervosa. No aeroporto, bastou que olhasse para a roupa cáqui cheia de bolsos de Demi para Edna cair na gargalhada. Ela estava usando uma calça de linho com friso e uma blusa branca de algodão.
Durante as intermináveis horas de voo, passando por Dallas e pela Cidade do México e finalmente, num avião pequeno, até Manágua, Edna encheu Demi de perguntas.
O avião aterrissou no que Demi achou parecido com um quintal. Homens –
meninos, na verdade – usando roupas camufladas estavam postados no perímetro da pista, empunhando rifles. Crianças saíram do meio da selva para brincar diante do vento dos motores. A dicotomia da imagem era algo que Demi sabia que jamais iria esquecer, mas, do instante em que saiu do avião até reembarcar para casa, cinco dias depois, teve muito pouco tempo para pensar em imagens.
Edna estava sempre em movimento.
Elas caminharam através de selvas repletas de guerrilheiros, ouvindo os gritos dos macacos e matando mosquitos, e navegaram rios cheios de jacarés.
Às vezes, eram vendadas, às vezes, podiam ver. Nas profundezas da selva, enquanto Edna gravava sua entrevista com El Jefe, o general no comando, Demi conversava com as tropas.
A viagem abriu seus olhos para um mundo que ela nunca vira antes. Mais do que isso, a viagem lhe mostrou quem ela era. O medo e o barato da adrenalina a estimularam mais do que qualquer outra coisa. Mais tarde, quando a reportagem estava pronta, e ela e Edna estavam de volta ao hotel na Cidade do México, sentadas na varanda do quarto de Edna e tomando tequila, Demi disse:
– Não tenho como agradecer a você, Edna.
Edna tomou mais uma dose e se recostou na cadeira. A noite estava silenciosa. Era a primeira vez em dias que elas não ouviam tiros.
– Você se saiu bem, garota.
O orgulho de Demi atingiu proporções quase dolorosas.
– Obrigada. Eu aprendi mais com você nas últimas semanas do que em quatro anos de faculdade.
– Então talvez queira ir comigo na minha próxima reportagem.
– Para qualquer lugar, a qualquer hora.
– Vou entrevistar Nelson Mandela.
– Conte comigo.
Edna se virou para ela. A luz laranja da lâmpada do outdoor ressaltou suas
rugas, deixando-a com olheiras. Com essa iluminação, ela parecia dez anos
mais velha, e cansada. Talvez um pouco bêbada.
– Você tem namorado?
– Do jeito que eu trabalho? – rebateu Demi sorrindo, e se serviu de mais
uma dose. – Difícil.
– É – falou Edna. – A história da minha vida.
– Você se arrepende? – perguntou Demi.
Se as duas não estivessem bebendo, jamais teria feito uma pergunta tão
pessoal, mas a tequila havia esmaecido os limites entre elas por apenas aquele instante. Demi podia fingir que as duas eram colegas em vez de ícone/novata.
– De ter feito disso a sua vida, quero dizer.
– É um preço que se paga, isso é certo. Para a minha geração, pelo menos, não se podia trabalhar nisso e ser casada. Era possível se casar, e eu me casei, três vezes, mas não era possível continuar casada. E pode esquecer de ter filhos.
Quando alguma coisa acontecia, eu precisava estar lá, ponto. Poderia ser no dia do casamento do meu filho, que eu teria ido. Então, eu vivi sozinha.
Ela olhou para Demi.
– E adorei. Cada segundo. Se acabar morrendo numa casa de repouso sozinha, quem se importa? Eu estive onde queria estar cada instante da minha vida e fiz algo que importava.
Demi sentiu como se estivesse sendo batizada na religião em que sempre acreditara.
– Amém.

– E então, o que você sabe sobre a África do Sul?

Amigas Para Sempre Capítulo 18

Dezoito
– Não sei quem escreve essas orientações, mas não acho que o filho da
mãe saiba falar o nosso idioma.
Sel sorriu e desceu cuidadosamente a escada. Sabia que Demi estava a um
passo de atirar a chave de fenda na parede recém-pintada.
– Deixe eu ver este papel.
Do lugar em que estava, no meio do quarto, cercada por pilhas de tábuas e pedaços de madeira brancos e montinhos de parafusos e porcas, Demi levantou o pedaço de papel comprido e amarrotado.
– À vontade.
Sel estudou as orientações ridiculamente complicadas.
– A gente começa com aquela peça comprida e achatada. Ela se encaixa
naquela peça, está vendo? Daí a gente aparafusa aquela parte ali…
Durante as duas horas seguintes, elas sentaram e levantaram, se agacharam
e se abaixaram, montando o berço mais complicado da história.
Quando o berço estava montado e havia sido colocado no lugar contra a parede pintada de amarelo com borda de ursinho Puff, as duas deram um passo para trás e admiraram o móvel.
– O que eu faria sem você, Demi?
Demi passou um braço ao redor da amiga.
– Felizmente, você nunca vai precisar saber. Vamos, vou preparar umas margaritas.
– Eu não posso beber. Você sabe disso.
Demi sorriu para ela.
– Sinto muitíssimo por isso, mas, como pode perceber, eu não tenho nenhum pãozinho no forno. Na realidade, não acredito que esteja a menos de mil quilômetros de uma padaria. Então, não apenas eu posso tomar uma margarita, mas depois de montar esse berço, um trabalho que, devo acrescentar, é totalmente do Nicholas e na realidade exigia um escroto para ser  realizado em menos de um dia inteiro, eu mereço uma margarita. E você, moça cada vez mais gorda, pode tomar um drinque não batizado. Irônico, não?
De braços dados, as duas foram até a cozinha e prepararam drinques. Por todo o caminho e de volta à sala de estar, onde sentaram diante da lareira, as duas conversaram. Sobre coisas bobas, principalmente – a multa por excesso de velocidade que Demi havia recebido na semana anterior, a nova namorada de Sean, as aulas que a mãe de Sel estava fazendo na faculdade comunitária local.
– Como é? – perguntou Demi quando Sel levantou para pôr uma lenha na lareira. – Estar casada?
– Bem, faz só quatro meses, então eu não sou exatamente uma especialista.
Mas até agora está sendo ótimo.
Sel se recostou e pôs os pés em cima da mesa de centro, descansando a mão sobre a barriga ainda pouco perceptível.
– Você vai achar que eu sou maluca, mas eu adoro a rotina, tomar café da manhã juntos, os dois lendo. Eu adoro que ele seja a primeira pessoa que eu veja todas as manhãs e que ele me dê um beijo de boa-noite antes que eu caia no sono – falou, e sorriu para Demi. – Mas sinto falta de dividir o banheiro com você. Ele está sempre mexendo nas minhas coisas e botando em outro lugar, e então se esquecendo de onde botou. E você, Demi? Como está a vida no nosso velho apartamento?
– Solitária – disse Demi, encolhendo os ombros e sorrindo, como se não se
importasse. – Estou me acostumando a isso de novo.
– Você pode me ligar a qualquer hora, sabe disso.
– E ligo mesmo – respondeu Demi com uma risada, e se serviu da segunda margarita. – Vocês dois já planejaram a vida para depois do nascimento do meu afilhado? Vão deixar você tirar licença?
Este era o assunto que Sel vinha tentando evitar. Ela sabia o que queria fazer desde o instante em que Nicholas havia se casado com ela, mas, nos quatro meses que se passaram desde então, não tivera coragem de contar a Demi.
Respirou fundo.
– Eu vou pedir demissão.
– O quê? Por quê? Você está com as melhores contas, e você e o Nicholas
estão ganhando bem. Podem contratar uma babá.
– Eu não quero que outra pessoa crie meu filho. Pelo menos não até o jardim de infância.
Isso fez Demi se levantar.
– Jardim de infância? Quanto tempo vai levar isso? Oito anos?
Sel sorriu.
– Cinco.
– Mas…
– Nada de mas. É importante para mim ser uma boa mãe. Você, de todas as
pessoas do mundo, deveria compreender quanto isso é importante para uma
criança.
Demi voltou a se sentar. Não havia nada que ela pudesse argumentar contra
isso. Demi ainda trazia as cicatrizes de ter uma mãe negligente.
– As mulheres podem fazer as duas coisas, sabia? Não estamos nos anos 1950.
– A minha mãe foi a todas as excursões que eu fiz. Ela ajudou na sala de aula todos os anos, até eu implorar que ela parasse de fazer isso. Eu só comecei a ir de ônibus para a escola no ginásio e ainda me lembro de conversar com a
minha mãe na volta da escola. Quero que o meu filho tenha tudo isso. Eu sempre posso voltar a trabalhar mais tarde.
– E você acha que isso vai ser o bastante para você? Levar a criança à escola, ir às excursões dela, ser voluntária na sala de aula?
– Se não for, eu vou encontrar outra coisa para fazer. Qual é, eu não sou uma astronauta. – brincou Sel. – Agora me fale sobre o seu trabalho. Eu vou
viver indiretamente através de você, então é bom que as histórias sejam boas.
Demi começou um relato hilário sobre sua pauta mais recente.
Sel se recostou e fechou os olhos, ouvindo a amiga.
– Sel? Sel?
Estava tão perdida nos próprios pensamentos que levou um tempo para
perceber que Demi estava falando com ela. Deu risada.
– Desculpe. O que você estava dizendo?
– Você dormiu enquanto eu falava. Eu estava contando sobre o cara que me
convidou para sair e, quando eu olhei, você estava apagada.
– Não estava, não – respondeu Sel rapidamente, mas a verdade era que ela
estava se sentindo letárgica e meio tonta também. – Acho que preciso de um
chá.
Sel se levantou e sentiu-se oscilar. Segurou-se nas costas do sofá.
– Nossa, isso foi… – no meio da frase, ela olhou para Demi e franziu a testa.
– Demi?
Demi se levantou com tanta agilidade que derrubou a margarita. Passou um
braço ao redor de Sel, ajudando a amiga a se equilibrar.
– Estou aqui.
Havia alguma coisa errada. Sel ficou completamente zonza e, de repente,
suas pernas falharam.
– Segure firme, querida – disse Demi, levando a amiga gentilmente para a
porta. – Precisamos ir até um telefone.
Telefone? Sel balançou a cabeça, confusa, com a visão embaçada.
– Eu não sei o que está acontecendo – murmurou ela. – É uma festa surpresa
para mim? É meu aniversário?
Então Sel olhou para o sofá onde estava sentada.
Uma poça escura de sangue estava manchando a almofada e pingando no
piso de madeira aos seus pés.
– Ah, meu Deus – sussurrou ela, tocando na barriga.
Queria dizer mais, orar, mas, enquanto tentava falar, o mundo virou de cabeça para baixo e ela desmaiou.
Demi obrigou os paramédicos a deixarem que ela fosse na ambulância. Ficou
sentada ao lado de Sel dizendo “estou bem aqui” sem parar.
Sel estava quase inconsciente. Estava com a pele branca como papel. Até mesmo seus olhos, normalmente tão brilhantes, estavam parados e vidrados.
Lágrimas escorriam por suas têmporas.
A ambulância parou no hospital. Demi foi empurrada para o lado na pressa
de tirarem Sel do carro e levá-la até o iluminado ambiente hospitalar. Demi
ficou parada na porta de entrada aberta, vendo a equipe levar sua melhor amiga. De repente, sentiu o impacto do que estava acontecendo.
Mulheres abortando podiam sangrar até morrer.
– Por favor, Deus – disse ela, desejando pela primeira vez na vida que realmente soubesse rezar. – Não me deixe perdê-la.
Demi sabia que era a oração errada, não era a oração que Sel desejaria que
ela fizesse.
– E cuide do bebê.
Parecia uma coisa absurda, rezar para aquele Deus que nunca a ouvira.
– A Selly vai à igreja todos os domingos – lembrou a Ele, para garantir.
No pequeno quarto verde do hospital com vista para o estacionamento, Sel dormia. Ao seu lado estava a Sra. M., sentada numa cadeira de plástico e lendo um livro de bolso. Como sempre fazia, movimentava os lábios enquanto
lia. Demi chegou ao lado dela e tocou em seu ombro.
– Trouxe um pouco de café.
Manteve a mão no ombro da Sra. M. Fazia quase duas horas desde que Sel havia perdido o bebê e, embora tivessem ligado para Nicholas, ele estava numa pauta em Spokane, do outro lado do estado.
– Acho que foi uma bênção isso ter acontecido cedo – disse Demi.
– Quatro meses não é cedo, Demi – sussurrou a Sra. Gomez. – As pessoas que nunca sofreram um aborto sempre dizem isso. Foi o que o Bud me disse.
Duas vezes – contou, e olhou para Demi. – Para mim, nunca pareceu uma bênção. Foi mais como a perda de alguém que eu amava. Você sabe como é isso, não sabe?
– Obrigada – disse ela, apertando o ombro da Sra. Gomez e então se aproximando da cama. – Agora eu sei o que não dizer. Só queria saber o que
fazer para ajudar.
Sel abriu os olhos e viu as duas.
A Sra. Gomez se levantou, foi até a cama da filha, ficando lado a lado com
Demi.
– Oi – sussurrou Sel. – Quanto tempo vai levar para Nicholas…
Ao dizer o nome do marido, Sel sentiu a voz falhar e começou a tremer.
– Alguém disse o meu nome?
Demi se virou.
Nicholas estava parado na porta com um buquê de flores meio entortado para a esquerda. Tudo nele parecia desarrumado – o rosto com barba por fazer era uma paleta contrastante de pele pálida e barba escura, os cabelos eram um emaranhado e os olhos refletiam uma exaustão profunda. Estava com a calça jeans rasgada e suja, e a camisa cáqui estava mais amarrotada do que uma cama por fazer.
– Aluguei um avião particular. Vai ser uma fatura de cartão e tanto.
Nicholas atirou as flores em cima de uma cadeira e foi até a mulher.
– Oi, querida – sussurrou. – Desculpe por ter demorado tanto.
– Era um menino – contou Selly, explodindo em lágrimas e agarrando-se a
ele.
Demi ouviu Nicholas começar a chorar com Sel.
A Sra. Gomez passou um braço pela cintura de Demi.
– Ele a ama – disse Demi lentamente.
A lembrança de sua noite com Nicholas a havia cegado de alguma forma, mantivera-a presa como um inseto na seiva de um tempo esquecido. Ela imaginara que Sel era de alguma forma a segunda opção dele, a segunda colocada na corrida do amor. Mas aquilo… aquilo não era uma segunda opção.
A Sra. Gomez a puxou de perto da cama.
– É claro que ele a ama. Venha, vamos deixá-los sozinhos.
As duas pegaram os cafés e foram para o corredor, onde o Sr. M. estava sentado numa cadeira desconfortável. Quando olhou para elas, viram seus olhos injetados.
– Como ela está?
– Nicholas está com ela agora – disse a Sra. M., tocando no ombro do marido.
Pela primeira vez em anos, Demi se sentiu uma estranha naquela família.
– Não se preocupe, Demi – a Sra. M. disse, observando-a de perto. – Ela
sempre vai precisar de você.
– Mas as coisas estão diferentes agora.
– É claro que estão. A Selly está casada. Vocês duas estão trilhando caminhos separados, mas sempre serão melhores amigas.
Caminhos separados.
Ali estava, a coisa que ela deveria ter visto, mas, de alguma forma, não vira.
Nos dias seguintes, todos se revezaram para ficar com Sel. Na quinta-feira,
foi a vez de Demi. Ela ligou para o trabalho dizendo que estava doente e passou o dia com a amiga. As duas jogaram cartas, viram televisão e conversaram. A maior parte do tempo, para ser sincera, Demi apenas ouviu. Quando era sua vez de responder, ela tentava dizer a coisa certa, mas, na maior parte das vezes, teve certeza de que não conseguira. Havia uma tristeza na amiga, um aspecto sombrio tão estranho que Demi tinha a sensação de haver topado com alguma versão negativa da amizade das duas. Nada que ela dissesse estava certo. Finalmente, por volta das oito horas, Sel disse:
– Sei que você vai achar que eu estou maluca, mas vou para a cama. Nicholas
vai estar em casa em uma hora. Você pode ir embora. Vá transar loucamente
com aquele novo cara, o Wilker.
– Wilmer. E eu não estou exatamente no clima de transar. Por outro lado…
Sorrindo, ajudou Sel a subir a escada e a deitou na cama. Então olhou para
a amiga.
– Você não sabe quanto eu queria dizer a coisa certa para fazer você se
sentir melhor.
– Você faz. Obrigada.
Sel fechou os olhos.
Demi ficou lá parada por mais um instante, sentindo-se estranhamente impotente. Dando um suspiro, voltou para baixo e começou a lavar a louça. Estava secando o último copo quando a porta se abriu silenciosamente e então se fechou.
Nicholas segurava um buquê de rosas cor-de-rosa. Com os cabelos recém cortados, os jeans desbotados e tênis branco com a lingueta para fora, parecia ter 20 anos. Em todo o tempo que o conhecia, nunca o vira tão triste e acabado.
– Oi – disse ele, deixando as flores em cima da mesa de centro.
– Você parece precisar de uma bebida.
– Que tal uma bebida na veia? – brincou ele, tentando sorrir. – Ela dormiu?
– Dormiu.
Demi pegou uma garrafa de uísque no balcão e preparou uma dose para Nicholas. Então serviu uma taça de vinho para si mesma e foi até ele.
– Vamos sentar na doca – disse ele, pegando o copo da mão dela. – Não quero acordá-la.
Demi pegou o casaco e o seguiu até o lado de fora. Os dois se sentaram lado
a lado na doca, como duas crianças, com os pés pendurados acima das águas
escuras do lago Union. Estava silencioso e tranquilo lá fora. A lua cheia no céu iluminava os telhados e era refletida por várias janelas. O barulho distante dos carros na ponte acompanhava o ritmo da água batendo no entorno.
– Como você está de verdade? – perguntou Demi.
– É com a Selly que eu estou preocupado.
– Eu sei – respondeu ela. – Mas eu perguntei por você.
– Já estive melhor.
Nicholas tomou um gole do uísque. Demi se encostou nele.
– Você tem sorte – disse ela. – Sel ama você, e quando um Gomez se apaixona, é para sempre.
No instante em que disse isso, Demi teve aquela estranha sensação de não
pertencimento de novo. Aquela sensação de solidão que de alguma forma estava simplesmente fora de vista, mas se aproximando. Pela primeira vez, ela se perguntou como sua vida poderia ter sido se ela tivesse feito como Sel e escolhido o amor. Será que então saberia como era pertencer de verdade a algum lugar, a alguém? Ficou olhando fixamente para a água.
– O que houve, Demi?
– Acho que estou com inveja da Sel e de você.
– Você não quer esta vida.
– Que vida eu quero?
Nicholas passou o braço ao redor dela.
– Esta é a única coisa que você sempre soube. Você quer as redes nacionais.
– Isso não faz de mim uma pessoa superficial?
Nicholas riu.
– Eu não sou exatamente a pessoa indicada para responder isso. Olhe só:
vou tentar fazer uns contatos. Cedo ou tarde vou conseguir uma vaga numa das grandes redes para você.
– Você faria isso?
– É claro. Mas você precisa ter paciência. Essas coisas levam tempo.
Ela se virou de lado e o abraçou, sussurrando “Obrigada, Nicholas”. Ele a
conhecia muito bem. De alguma forma, já sabia o que ela havia acabado de
descobrir: estava na hora de ela seguir em frente.
Por mais cansada que estivesse, Sel não conseguia cair no sono. Ficou deitada na cama, olhando fixamente para o teto, esperando pelo marido. Aquela ansiedade dela estava no coração do relacionamento dos dois. Quando as coisas iam mal, ela lembrava que havia sido uma segunda opção. Não importava quanto dissesse a si mesma que isso não era verdade, havia uma versão sombria de si mesma que acreditava nisso e se preocupava. Era uma neurose destrutiva. Como quando a água do rio Snohomish subia, erodindo tudo ao redor, derrubando porções enormes de terra.
Ouviu um barulho lá embaixo.
Ele estava em casa.
– Graças a Deus.
Saiu dolorosamente da cama e desceu.
As luzes estavam apagadas. O fogo da lareira estava quase extinto. Restava
apenas um brilho laranja fraco. Primeiro, Sel pensou que houvesse se enganado, que ele não havia chegado em casa. Então notou as sombras nom deque. Duas pessoas, sentadas lado a lado, com os ombros se tocando. O luar
revelou suas silhuetas, deixando-os prateados contra a escuridão da água. Atravessou a casa em silêncio, abriu a porta e saiu na noite gelada. Uma brisa suave agitou seus cabelos e a camisola. Demi se virou, abraçou Nicholas e sussurrou alguma coisa no ouvido dele. A resposta dele foi encoberta pelo barulho da água batendo na doca. Talvez tivesse dado risada. Sel não tinha como saber.
– Estão fazendo uma festa sem mim?
Sel ouviu a própria voz falhando e respirou fundo para disfarçar. No fundo, sabia que Nicholas não havia se virado para beijar Demi, mas seu lado sombrio não tinha certeza disso. Aquele pensamento feio e tóxico era menor do que uma gota de sangue, mas envenenava toda a corrente. Num instante, Nicholas estava ao seu lado. Ele a tomou em seus braços e a beijou. Quando ele recuou, Sel procurou por Demi, mas os dois estavam sozinhos no deque. Pela primeira vez na vida, Sel desejou amá-lo com menor intensidade. Era perigoso ter um sentimento daquele, transformava-a numa criança exposta às intempéries. Frágil e infinitamente assustada. Ele poderia acabar com ela algum dia. Disso, não tinha dúvida.
Enquanto os meses se passavam e um novo ano começava, Demi tentava se
manter paciente e acreditar que o melhor aconteceria, mas, no fim de maio,
tinha praticamente desistido. O ano de 1987 não prometia ser bom para ela.
Agora era a manhã de um dia quente de primavera e ela se esforçava para ficar feliz sendo a âncora substituta. Ao fim da transmissão, voltou para sua sala.
Estava sentando em sua cadeira quando ouviu:
– Linha dois, Demi.
Levantou o fone, apertou o botão quadrado branco da linha dois, que imediatamente se acendeu.
– Demetria Lovato.
– Olá, Srta. Lovato. Aqui é Dick Emerson. Sou o vice-presidente de programação da NBC em Nova York. Soube que está pensando em trabalhar para uma rede nacional.
Demi controlou um arquejo.
– Estou.
– Estamos com uma vaga de repórter no programa matinal.
– É mesmo?
– Vou entrevistar quase cinquenta candidatos na próxima semana. A
concorrência será feroz, Srta. Lovato.
– Eu também sou, Sr. Emerson.
– É esse o tipo de ambição que eu gosto de ouvir.
Demi ouviu o som de páginas sendo viradas em cima de uma mesa.
– Vou dizer para a minha secretária enviar uma passagem para você. Ela vai
ligar e combinar um lugar na cidade para a senhorita se hospedar e a data da entrevista. Tudo bem para você?
– Perfeito. Obrigada, senhor. Não vou decepcioná-lo.
– Ótimo. Detesto perder tempo – falou ele, e fez uma breve pausa para
acrescentar: – E diga a Nicholas Ryan que eu mandei lembranças.
Demi desligou e imediatamente discou o número de Sel e Nicholas.
Sel atendeu no mesmo instante.
– Alô?
– Eu amo o seu marido.
Houve uma pausa de meio segundo.
– É mesmo?
– Ele conseguiu uma entrevista para mim na NBC.
– Na semana que vem, não é?
– Você sabia?
Sel riu.
– É claro que sabia. Ele vem tentando isso há um tempão. E foi essa que vos
fala quem pôs as fitas no correio.
– Com tudo o que você tem na cabeça, ainda estava pensando em mim? –
disse Demi, espantada.
– Somos você e eu contra o mundo, Demi. Algumas coisas nunca mudam.
– Desta vez eu sem dúvida vou pôr fogo no mundo – disse ela, dando risada.
– Finalmente tenho a porra de um fósforo.
A cidade de Nova York era tudo o que Demi havia sonhado. Na primeira
semana, com seus cartões de visita com a logomarca da NBC na mão, ela percorria aquelas ruas movimentadas como Alice no País das Maravilhas, com o rosto sempre voltado para cima. Os arranha-céus intermináveis a impressionavam, assim como os restaurantes que nunca fechavam, as charretes puxadas por cavalos ao longo do parque e as multidões de pessoas vestidas de preto que enchiam as ruas. Ela havia passado duas semanas explorando a cidade, escolhendo uma vizinhança, procurando um apartamento, aprendendo a andar de metrô. Poderia ter sido um período solitário – afinal, quem gostaria de ver as atrações de uma cidade mágica como Nova York sem companhia? Mas a verdade era que ela estava tão empolgada com o novo emprego que nem estar sozinha a incomodava. Além disso, na cidade que nunca dorme, nunca se está realmente sozinho. Sempre há pessoas nas ruas, mesmo no meio da madrugada. E também havia o trabalho. Desde o instante em que entrou no prédio da NBC como repórter, Demi se sentiu 􀙼sgada. Ela acordava todas as madrugadas às duas e meia, para que pudesse estar no estúdio às quatro. Embora tecnicamente não precisasse chegar tão cedo, adorava 􀙼car por perto e ajudar.
Observava cada movimento, cada gesto de Jane Pauley.
Demi havia sido contratada como repórter geral, o que significava ser designada para auxiliar em reportagens de outras pessoas. Algum dia, se tivesse sorte, seria enviada para cobrir uma história que os jornalistas-estrelas não aceitariam de jeito nenhum – a maior abóbora já colhida no estado de Indiana ou algo igualmente importante. E Demi mal podia esperar. Depois que passasse por essa fase, seria designada para uma cobertura realmente importante. E quando por fim tivesse essa oportunidade, ia arrasar. Na verdade, ao ver pessoas como Jane Pauley e Bryant Gumbel trabalhando, sabia que ainda precisava evoluir muito. Eles eram como deuses para ela, e Demi passava cada instante livre observando como trabalhavam. Em casa, analisava as transmissões, gravando-as em fitas de vídeo, a que assistia várias vezes.
Quando chegou o outono de 1989, ela finalmente havia encontrado o próprio tom e começava a se sentir menos uma repórter interna e mais uma jovem a caminho de deixar sua marca. No último mês recebera a primeira tarefa séria: fora ao Arkansas fazer uma reportagem sobre um porco premiado. A história não chegou a ir ao ar, mas ela havia feito seu trabalho, feito-o bem, e aprendera muito na viagem. Tinha certeza de que teria aprendido mais se o programa matinal em que trabalhava não estivesse em tamanha agitação. Havia uma guerra acontecendo nos bastidores e o país inteiro sabia disso. Na semana anterior, uma nova fotografia de divulgação fora feita e Deborah Norville, a apresentadora do programa do primeiro horário, aparecera no sofá ao lado de Jane e Bryant. O efeito dessa imagem repercutiu pela empresa e mesmo pelo país. Várias matérias foram publicadas dizendo que Norville estava tirando Pauley da jogada. Demi mantinha a cabeça baixa e 􀙼cava longe das fofocas. Nenhuma fábrica de boatos atrapalharia suas chances de sucesso. Preferia manter o foco no próprio trabalho. Se trabalhasse mais do que todo mundo, talvez conseguisse um lugar no programa do primeiro horário, o NBC News at Sunrise. De lá, sabia que algum dia chegaria ao noticiário Today e, depois, o mundo seria seu. Trabalhando dezoito horas por dia, ela não tinha tanto tempo para sua vida pessoal, mas ainda tinha Sel, apesar da distância. Conversavam pelo menos duas vezes por semana, e todos os domingos Demi ligava para a Sra. M. Contava a ela histórias sobre as pressões do trabalho, as celebridades que via e a vida em Manhattan. Elas respondiam com detalhes sobre a nova casa que Sel e Nicholas haviam comprado, a viagem que o Sr. e a Sra. M. haviam planejado para a primavera e – o melhor de tudo – a notícia de que Sel estava grávida novamente e tudo estava indo bem.
Os dias passavam voando, tão rápido que às vezes eram apenas um borrão de som e cores. Mas ela estava no caminho certo. Sabia disso, e isso a mantinha
seguindo em frente. Naquele dia, como em todos os muitos dias que vieram antes, ela havia passado quatorze horas na emissora e estava voltando cansada para casa. Na rua, foi atraída pelos enfeites de Natal do Rockefeller Center. Mesmo com o clima cinzento de uma noite nublada, havia gente por todos os lados, fazendo compras, tirando fotos da árvore gigante e patinando no gelo. Estava prestes a voltar a caminhar quando viu a placa do restaurante Rainbow Room e pensou: por que não? Estava em Nova York fazia mais de um ano e, embora tivesse conhecido muita gente, não havia saído com ninguém ainda.
Talvez tenha sido a decoração de Natal, ou a forma como o chefe riu quando ela pediu folga no feriado, não sabia ao certo. Tudo o que sabia era que era noite de sexta-feira, pouco antes do Natal (o primeiro que passaria sozinha)
e ela não estava a fim de ir para o apartamento vazio. A CNN poderia esperar. A vista do Rainbow Room era tudo o que ela havia ouvido falar e ainda mais. Era como se estivesse na ponte de alguma nave-mãe do futuro, pairando sobre a grandeza multicolorida da noite de Manhattan. Como ainda era cedo, havia muitos lugares no bar e às mesas. Escolheu uma mesa perto da janela, sentou-se e pediu uma margarita. Estava prestes a pedir mais uma quando o bar começou a encher. Homens e mulheres de Wall Street e de Midtown formavam pequenos grupos junto a turistas arrumados demais e se apossavam de todas as mesas e cadeiras, lotando o bar.
– Posso me sentar com você?
Demi ergueu os olhos.
Um louro bonitão de terno caro estava sorrindo para ela.
– Estou cansado de me acotovelar com os yuppies para conseguir uma bebida.
Sotaque britânico. Ela era louca por isso.
– Eu detestaria deixá-lo sentindo sede.
Empurrou a cadeira em frente com o pé apenas o suficiente para que ele pudesse sentar.
– Graças a Deus.
Chamou um garçom, pediu um uísque com gelo para ele e outra margarita
para ela e se atirou na cadeira.
– Isso aqui é um matadouro dos infernos, não? Aliás, meu nome é Grant.
Ela gostou do sorriso dele e sorriu também.
– Demi.
– Sem sobrenomes. Ótimo. Isso quer dizer que não precisamos saber da
vida um do outro. Podemos apenas nos divertir.
O garçom entregou as bebidas e os deixou a sós novamente.
– Saúde – brindou ele, batendo seu copo no dela. – A vista aqui é melhor do
que me fizeram crer – comentou ele, e se inclinou na direção de Demi. – Você é linda, mas imagino que saiba disso.
Ela vinha ouvindo isso a vida inteira. Normalmente, não significava nada para ela, mas, por algum motivo, naquele salão, com as festas de fim de ano se aproximando, aquele elogio era exatamente o que ela precisava escutar.
– Por quanto tempo vai ficar na cidade?
– Mais ou menos uma semana. Trabalho na Virgin Entertainment.
– Você está inventando isso?
– Não, é sério. É uma das empresas de Richard Branson. Estamos em busca
de locais nos Estados Unidos para uma megastore.
– Tenho medo até de pensar no que vocês vendem.
– Que maliciosa, você. Para começar, é uma loja de música.
Demi tomou um gole do drinque olhando para ele por cima da borda cheia de sal da taça e sorrindo. Sel estava sempre dizendo que ela devia sair mais, conhecer pessoas. Naquele instante, parecia um ótimo conselho.

– Seu hotel é aqui perto?