domingo, 2 de março de 2014

Amigas Para Sempre Capítulo 3

Três
Ainda estava escuro quando o despertador de Selena Gomez tocou. Ela resmungou e permaneceu deitada, olhando fixamente para o teto inclinado. Só de pensar em ir à escola, já se sentia mal. Para ela, a oitava série era um horror: 1974 havia se revelado um ano péssimo, um deserto social. Graças a Deus, faltava apenas um mês para as aulas terminarem. Não que o verão prometesse ser melhor. Na sexta série, ela tivera duas grandes amigas. Faziam tudo juntas – exibiam seus cavalos, frequentavam o grupo de jovens e andavam de bicicleta de casa em casa. No verão em que fizeram 12 anos, tudo acabou. As amigas piraram; não havia outra forma de descrever o que acontecera. Passaram a fumar maconha antes da escola, a matar aulas, e nunca perdiam uma festa. Como Selena não as acompanhava, elas a deixaram de lado. Ponto. E os meninos e meninas “bons”não se aproximavam dela porque ela fizera parte do clube das maconheiras. Agora, os livros eram seus únicos amigos. Havia lido O senhor dos anéis tantas vezes que era capaz de recitar cenas inteiras de cor. Não era o tipo de coisa que a ajudasse a se tornar popular. Suspirou e saiu da cama. No minúsculo closet do andar de cima que recentemente havia sido transformado em banheiro, ela tomou uma ducha rápida, fez uma trança nos cabelos louros lisos e pôs os óculos de aros grossos. Eles estavam absolutamente fora de moda – o que se usava agora eram óculos de lentes redondas sem aros, mas seu pai dissera que ainda não dava para comprar outra armação. No andar de baixo, ela foi até a porta dos fundos, dobrou as calças até as canelas e calçou as imensas botas pretas de borracha que ficavam nos degraus de concreto. Caminhando como Neil Armstrong, ela atravessou o lamaçal até o galpão que ficava na parte de trás do terreno. A velha égua da família veio mancando até a cerca e a cumprimentou relinchando.
– Oi, Sweetpea – disse Sel, atirando um maço de feno no chão e coçando a orelha aveludada do animal. – Também senti sua falta.
E era verdade. Dois anos antes, elas tinham sido inseparáveis. Selena montara aquela égua durante todo o verão e ganhara vários prêmios na feira de Snohomish. Mas as coisas mudavam rápido. Agora ela sabia disso. Um cavalo podia envelhecer da noite para o dia e 􀙼car manco. Um amigo podia se tornar um estranho com a mesma rapidez.
– Tchau.
Ela claudicou o caminho escuro e enlameado de volta e deixou as botas na varanda. Quando abriu a porta dos fundos, entrou num pandemônio. Sua mãe estava dentro da pequena cozinha, preparando o café da manhã e berrando uma resposta a alguma pergunta desconhecida. Como sempre, estava na frente do fogão usando seu vestido de flores desbotado e pantufas cor-de-rosa de pelo embolado, fumando um cigarro mentolado Eve e despejando massa sobre uma frigideira elétrica retangular de bordas arredondadas. Os cabelos na altura dos ombros estavam presos em marias-chiquinhas mirradas, amarradas com fita cor-de-rosa.
– Ponha a mesa, Selly – pediu ela, sem levantar o olhar. – Sean! Desça. Selena obedeceu. Pouco antes de terminar a tarefa, a mãe estava atrás dela, servindo leite nos copos.
– Sean… café – berrou a mãe de novo para o andar de cima. Desta vez, acrescentou as palavras mágicas: – Já servi o leite.
Em segundos, seu irmão de 8 anos desceu correndo a escada e se atirou na direção da mesa de fórmica bege, dando risada ao tropeçar no filhote de labrador que havia entrado recentemente para a família. Selena estava prestes a se sentar no lugar de sempre quando olhou para a sala do outro lado da cozinha. Pela janela grande que ficava acima do sofá, ela viu algo que a surpreendeu. Uma van de mudança virando na entrada de garagem da casa do outro lado da rua.
– Nossa.
Ela cruzou os dois cômodos carregando seu prato e ficou na janela, olhando através dos 12 mil metros quadrados de terreno da família e colina abaixo, para a casa do outro lado da rua, que estivera desocupada desde sempre. Ouviu os passos da mãe, ruidosos sobre o piso de linóleo da cozinha que imitava tijolos e silenciosos ao passar para o tapete verde-musgo da sala de estar.
– Alguém está se mudando para o outro lado da rua – disse Sel.
– É mesmo?
Não. Estou mentindo.
– Talvez tenham uma menina da sua idade. Seria legal você ter uma amiga.
Selena conteve uma resposta irritada. Só as mães achavam que era fácil fazer amizades na escola.
– Tanto faz.
Ela se virou abruptamente, levando o prato para o corredor, onde terminou o café da manhã em paz embaixo do quadro de Jesus.
Como era de esperar, sua mãe a seguiu. Ficou parada ao lado do quadro de tapeçaria da santa ceia sem dizer nada.
– O que foi? – disparou Selena quando não conseguiu mais aguentar.
O suspiro da mãe foi tão baixinho que mal deu para escutar.
– Por que estamos sempre discutindo ultimamente?
– É você quem começa.
– Dizendo olá e perguntando como você está? É, eu sou uma bruxa.
– É você quem está dizendo.
– Não é minha culpa, sabe?
– O que não é sua culpa?
– Que você não tenha nenhum amigo. Se você…
Selena saiu de perto. Em nome de São Judas, se ouvisse mais um sermão na linha de que ela precisava se esforçar mais, iria vomitar. Felizmente – para variar –, a mãe não a seguiu. Em vez disso, voltou à cozinha, chamando:
– Rápido, Sean. O ônibus escolar dos Gomez sai em dez minutos.
O irmão dela riu. Selena revirou os olhos. Era tão idiota. Como podia rir da mesma piada idiota todos os dias?
A resposta veio tão rápido quanto a pergunta: era porque ele tinha amigos. A vida com amigos tornava tudo mais fácil. Ela se escondeu no quarto até ouvir a partida do motor da velha perua Ford. A última coisa que queria era que a mãe a levasse para a escola, para ficar gritando tchau e acenando feito uma participante de programa de TV quando Selena saísse do carro. Todo mundo sabia que era suicídio social ser levado à escola pelos pais. Quando ouviu o barulho dos pneus passando lentamente pelo cascalho da entrada da garagem, desceu novamente, lavou a louça, juntou suas coisas e saiu da casa. Do lado de fora, o sol estava brilhando, mas a chuva da noite anterior havia salpicado a entrada de carros com buracos de lama do tamanho de pneus. Sem dúvida, os veteranos da loja de ferragens já estavam começando a comentar sobre a enchente. A lama colava nas solas de seus sapatos, fazendo-a diminuir a velocidade. Estava tão preocupada em não estragar suas únicas meias coloridas que já estava no final da entrada de carros quando percebeu a menina parada do outro lado da rua. Ela era maravilhosa. Alta e com peitos grandes, tinha cabelos castanho avermelhados compridos e ondulado e o rosto da princesa Caroline de Mônaco, além de pele clara, lábios carnudos e cílios longos. E as roupas: ela estava usando uma calça jeans de cintura baixa com três botões muito bacana, com enormes retalhos de tecido em tie-die na bainha formando bocas de sino. Seus sapatos plataforma de solado de cortiça tinham saltos de dez centímetros e a bata cor-de-rosa com mangas morcego exibiam pelo menos cinco centímetros de barriga. Selena abraçou seus livros desejando que não tivesse espremido suas espinhas na noite anterior. Ou que não estivesse usando jeans masculinos da Sears.
– O-oi – disse ela, ao parar no seu lado da rua. – A parada do ônibus é do lado de cá – avisou.
Os olhos cor de chocolate com muito rímel preto e uma sombra azul brilhante a encararam sem revelar nada. Naquele momento, o ônibus da escola chegou. Chiando e rangendo, parou na rua. Um menino por quem ela tinha uma queda enfiou a cabeça pela janela e gritou:
– Ei, Selena, a enchente já baixou – e deu risada.
Selena baixou a cabeça e entrou no ônibus. Depois de se sentar no costumeiro assento da frente – sozinha –, ela manteve a cabeça abaixada, esperando que a menina nova passasse por ela, mas ninguém mais embarcou. Quando as portas fecharam e o ônibus arrancou, ousou olhar de volta para a rua.
A menina com o jeito mais bacana do mundo não estava lá. Demi já não havia se encaixado. Levara duas horas escolhendo suas roupas naquela manhã – uma composição vinda diretamente das páginas da revista Seventeen – e tudo o que vestira estava inadequado. Quando o ônibus escolar chegou, ela tomara uma decisão rápida. Não iria à escola naquele lugar cheio de caipiras. Snohomish devia ficar a menos de uma hora do centro de Seattle, mas, para ela, parecia estar na lua. Eis quanto aquele lugar era esquisito.
Não.
De jeito nenhum.
Ela marchou pela entrada de carros feita de cascalho e empurrou a porta da frente com tanta força que a bateu contra a parede.
Havia aprendido que uma boa dramatização enfatizava as suas intenções.
– Você deve estar chapada – disse ela em voz alta, percebendo um pouco tarde demais que as únicas pessoas na sala eram os homens da mudança. Um deles fez uma pausa e olhou sem ânimo para ela.
– Ahn?
Ela passou por eles, dando um encontrão tão forte no armário que eles praguejaram baixinho. Não que ela se importasse. Detestava ficar daquele jeito, bufando de raiva. Não permitiria que sua suposta mãe a fizesse se sentir toda errada, não depois de todas as vezes que aquela mulher a abandonara. Na suíte, sua mãe estava sentada no chão, recortando fotos da revista Cosmopolitan. Como sempre, seus cabelos compridos e ondulados estavam desgrenhados, com uma faixa antiquada de couro e contas. Sem olhar para cima, ela virou para a página seguinte, onde um sorridente Burt Reynolds nu cobria o pênis com uma das mãos.
– Eu não vou estudar nessa escola provinciana. Eles são um bando de caipiras.
– Ah – fez a mãe, que virou a página novamente, pegou a tesoura e começou a recortar um ramo de flores de um anúncio. – Tudo bem.
Demi quis gritar.
– Tudo bem? Tudo bem? Eu tenho 14 anos.
– Minha função é amar e apoiar você, não dar bronca.
Demi fechou os olhos, contou até dez e disse de novo:
– Eu não tenho nenhum amigo aqui.
– Faça novos amigos. Ouvi dizer que você era a Miss Popularidade na sua antiga escola.
– Qual é, mamãe, eu…
– Nuvem.
– Não vou chamá-la de Nuvem.
– Está bem, Demetria.
A mãe ergueu o olhar para se certificar de que ela havia sido clara. E havia.
– Meu lugar não é aqui.
– Você sabe muito bem que as coisas não são assim, Demi. Você é uma filha da terra e do céu, seu lugar é em todos os lugares. O Bhagavad Gita diz que…
– Chega.
Demi virou as costas e se afastou, deixando a mãe falando sozinha. A última coisa que queria ouvir era algum conselho sem sentido vindo de uma hippie drogada. Na saída de casa, tirou um maço de cigarros Virginia Slims da bolsa da mãe e seguiu para a rua. Durante a semana seguinte, Selly ficou observando a distância a menina nova. Demi Lovato era diferente, de um jeito ousado e bacana: tinha uma espécie de brilho que ofuscava todas as outras pessoas que passavam pelos corredores verdes desbotados da escola. Ela não tinha hora para voltar para casa e não se importava de ser flagrada fumando no bosque atrás da escola. Todo mundo estava falando sobre isso. Selly podia perceber o espanto nas vozes ao sussurrarem coisas sobre ela. Para os adolescentes que haviam crescido nas fazendas de gado leiteiro e nas casas de operários da fábrica de papel do vale Snohomish, Demi Lovato era exótica. Todos queriam ser amigos dela. A popularidade instantânea da vizinha tornou a exclusão de Selena ainda mais insuportável. Ela não sabia ao certo por que isso a feria tanto. Tudo o que sabia era que, todas as manhãs, quando as duas ficavam paradas no ponto de ônibus uma ao lado da outra e, no entanto, com um mundo de distância, separadas por um silêncio absoluto, Selena sentia um desejo desesperado de ser reconhecida por Demi. Não que isso algum dia fosse acontecer.
–… antes de o programa de Carol Burnett começar. Está pronto. Sel?
Selly?
Selena levantou a cabeça. Havia caído no sono em cima do livro de estudos sociais na mesa da cozinha.
– Ahn? O que você disse? – perguntou ela, pondo de volta os óculos pesados.
– Preparei macarrão com carne para as nossas novas vizinhas. Quero que você leve.
– Mas… – Selena tentou pensar numa desculpa, qualquer coisa que a tirasse daquela situação. – Elas já se mudaram há uma semana.
– Então eu estou atrasada. As coisas andam meio complicadas ultimamente.
– Eu tenho muito dever de casa. Mande o Sean.
– Acho que Sean não vai conseguir fazer amizades lá, não é?
– Eu também não – respondeu Selena com certa melancolia.
A mãe a encarou. Os cabelos castanhos que ela enrolara e penteara com tanto cuidado naquela manhã haviam despencado durante o dia, e a maquiagem desbotara. Agora, seu rosto redondo de maçãs salientes parecia pálido e abatido. Seu colete roxo e amarelo – presente de Natal do ano anterior – estava abotoado de maneira errada. Encarando Sel, atravessou a cozinha e sentou à mesa.
– Posso dizer uma coisa sem que você fique furiosa comigo?
– Provavelmente não.
– Eu sinto muito em relação a você e Joannie.
De todas as coisas que Selena poderia esperar ouvir, aquela nem apareceria na lista.
– Não tem importância.
– Tem importância, sim. Ouvi falar que ela tem andado com um pessoal muito suspeito ultimamente.
Selena queria dizer que ela não se importava nem um pouco, mas, para seu horror, sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Foi tomada pelas lembranças – de Joannie e ela andando na roda gigante na última feira, das duas sentadas do lado de fora dos estábulos, conversando sobre como o próximo ano na escola seria legal. Ela deu de ombros.
– É.
– A vida é dura às vezes. Principalmente aos 14 anos.
Selena revirou os olhos. Se havia uma coisa de que tinha certeza era que a mãe não sabia nada sobre como a vida podia ser dura para uma adolescente.
– É uma merda mesmo.
– Vou fingir que não ouvi você dizer essa palavra. Vai ser fácil, porque nunca mais vou voltar a ouvir. Certo?
Selena desejou ser como Demi. Ela jamais recuaria com facilidade. Ela provavelmente acenderia um cigarro naquele momento e desafiaria a mãe a dizer alguma coisa.
A mãe revirou o bolso da saia e encontrou seus cigarros. Depois de acender um, analisou Sel.
– Sabe, eu amo você, eu a apoio e eu nunca deixaria ninguém magoá-la. Mas, Selly, eu preciso perguntar: o que é que você está esperando?
– O que você quer dizer?
– Você passa todo o seu tempo lendo e fazendo dever de casa. Como as pessoas vão conhecê-la se age dessa maneira?
– As pessoas não querem me conhecer.
A mãe tocou sua mão de forma gentil.
– Nunca é bom ficar sentada esperando que alguém ou alguma coisa mude a nossa vida. É por isso que mulheres como Gloria Steinem estão queimando sutiãs e fazendo protestos em Washington.
– Para que eu possa fazer amizades?
– Para que você saiba que pode ser o que quiser. A sua geração tem muita sorte. Vocês podem ser o que quiserem. Mas você precisa se arriscar às vezes. Se abrir para o mundo. Uma coisa que eu posso lhe dizer com certeza é o seguinte: na vida, a gente só se arrepende do que não faz. Selena ouviu algo estranho na voz de sua mãe, uma tristeza que marcou a palavra “arrepende”. Mas o que sua mãe poderia saber sobre o campo de batalha da popularidade do mundo escolar? Fazia décadas que ela havia sido
adolescente.
– É, tá certo.
– É verdade, Selena. Um dia você vai ver como eu sou inteligente – garantiu a mãe, sorrindo e lhe dando um tapinha na mão. – Se você for como todos nós, isso vai acontecer mais ou menos quando você quiser que eu fique de babá para você pela primeira vez.
– Do que você está falando?
Sua mãe riu de alguma piada que Selena nem sequer entendeu.
– Estou feliz por termos conversado. Agora, vá. Vá fazer amizade com a nova vizinha.
É. Isso certamente ia acontecer.
– Use as luvas térmicas. Ainda está quente – avisou a mãe.
Perfeito. As luvas de cozinha. Selena foi até o balcão e ficou olhando para a massa com molho marrom avermelhado. Desanimada, pôs um pedaço de papel-alumínio em cima, dobrou as pontas para baixo e então vestiu as luvas fofas de patchwork azul que sua tia Georgia havia feito. Na porta dos fundos, encaixou seus pés com meias nos sapatos que estavam na varanda e seguiu pela lama da entrada de carros. A casa do outro lado da rua era comprida e baixa, uma construção em forma de L que ficava de costas para a rua. O teto estava coberto de limo. As
laterais cor de marfim precisavam de pintura e as calhas estavam cheias de folhas e galhos. Arbustos gigantes de rododendros escondiam a maioria das janelas e zimbros criavam uma barreira verde e cheia de espinhos que percorria todo o comprimento da casa. Ninguém cuidava do quintal fazia anos. Na porta da frente, Selena fez uma pausa e respirou fundo. Então, equilibrando a caçarola com a massa em uma das mãos, tirou uma luva e bateu.
Por favor, que não tenha ninguém em casa. Quase que instantaneamente, ela ouviu passos lá dentro. A porta se abriu, revelando uma mulher alta com uma túnica esvoaçante. Usava uma tiara indiana de contas em volta da testa e brincos que não combinavam. Os olhos dela tinham um embotamento estranho, como se precisasse de óculos, mas não os estivesse usando. Mesmo assim, era bonita, de um jeito elegante e delicado.
– Sim?
Uma música pulsante e esquisita parecia vir de vários lugares ao mesmo tempo. Embora as luzes estivessem desligadas, várias lâmpadas de lava estavam acesas e borbulhando em estranhas caixas verde e vermelhas.
– O-olá – gaguejou Sel. – Minha mãe preparou este macarrão para vocês.
– Falou – disse a mulher, tropeçando para trás e quase caindo.
De repente, Demi estava passando pela porta; deslizando, na verdade, movimentando-se com a graça e a confiança que lembrava mais uma estrela de cinema do que uma adolescente. Usando um minivestido de um azul forte e botas de cano alto brancas, ela parecia ter idade suficiente para dirigir. Sem dizer nada, agarrou o braço de Selena e a puxou através da sala até uma cozinha em que tudo era rosa-choque: as paredes, os armários, as cortinas, os azulejos, a mesa. Quando Demi olhou para ela, Selena acreditou ter visto algo que parecia vergonha naqueles olhos escuros.
– Aquela é a sua mãe? – perguntou Sel, sem saber o que dizer.
– Ela tem câncer.
– Ah. – Selena não soube o que dizer, exceto: – Sinto muito.
O ambiente ficou em silêncio. Em vez de olhar nos olhos de Demi, Sel analisou a mesa. Nunca na vida tinha visto tanta besteira num único lugar: biscoitos recheados, cereais açucarados, bolinhos, pacotes de salgadinhos.
– Nossa. Queria que a minha mãe me deixasse comer todas essas coisas.
Selena imediatamente desejou que não tivesse dito nada. Agora ela estava muito sem graça. Para ter alguma coisa a fazer e algo para que olhar além do rosto indecifrável de Demi, ela pôs a travessa em cima do balcão.
– Ainda está quente – disse, de um jeito meio estúpido, considerando que estava usando luvas de forno parecidas com orcas.
Demi acendeu um cigarro e se encostou na parede cor-de-rosa, olhando para ela.
Selena olhou para a porta que dava para a sala.
– Ela não se importa que você fume?
– Ela está doente demais para se importar.
– Ah.
– Quer um trago?
– Ahn… não. Obrigada.
– É. Eu imaginei.
Na parede, o relógio em forma de gato bateu o rabo.
– Bem, você provavelmente precisa voltar para casa para o jantar – disse Demi.
– Ah – fez Selena de novo, parecendo ainda mais nerd do que antes. – Certo.
Demi a guiou de volta até a sala, onde sua mãe agora estava atirada no sofá.
– Tchau, menina do outro lado da rua que faz coisas bacanas de vizinhos.
Demi abriu a porta. Do outro lado, a noite que caía era um retângulo roxo indistinto que parecia vívido demais para ser real.
– Obrigada pela comida – disse ela baixinho. – Eu não sei cozinhar e o cérebro da Nuvem está frito, se entende o que eu quero dizer.
– Nuvem?
– É o nome atual da minha mãe.
– Ah.
– Seria legal se eu soubesse cozinhar. Ou se tivéssemos uma cozinheira ou  coisa parecida. Como a Mamãe está com câncer, e tal – disse Demi, e olhou para ela.
Diga que você pode ensiná-la. Arrisque-se.
Mas ela não conseguiu dizer. O potencial de humilhação era grande demais.
– Bem… tchau.
– Até mais tarde.
Selena passou por ela e saiu para ganhar a noite.
Estava no meio do caminho quando Demi a chamou:
– Ei, espere.
Selena se virou lentamente.
– Qual é o seu nome?
Ela sentiu um lampejo de esperança.
– Sel. Selena Gomez.
Demi riu.
– Gomez? Que nome esquisito.
Já não era mais engraçado esse tipo de comentário a respeito do sobrenome dela. Selena suspirou e se virou novamente.
– Eu não tive intenção de rir – disse Demi, mas não parou.
– Ok. Que seja.
– Ótimo. Aja como uma vaca, por que não?

Selena continuou caminhando.

Amigas Para Sempre Capítulo 2



Dois
Para a maior parte do país, 1970 foi um ano de revoltas e mudanças, mas naquela casa de Magnolia Drive, tudo estava sempre organizado e tranquilo. Do lado de dentro, aos 10 anos de idade, Demi Lovato estava sentada num piso frio de madeira, montando uma pequena casinha de brinquedo para suas bonequinhas, que dormiam em minúsculos lenços de papel cor-de-rosa. Se estivesse no quarto, estaria tocando Jackson Five na vitrola, mas na sala não havia aparelho de som.
Sua avó não gostava muito de música, nem de televisão ou jogos de tabuleiro. Durante a maior parte do tempo – como naquele momento –, a Vovó ficava sentada na cadeira de balanço ao lado da lareira fazendo bordados em ponto de cruz. Ela produzia centenas de toalhinhas, a maioria com citações da Bíblia. No período do Natal, ela as doava para a igreja, que as vendia em eventos beneficentes.
E o Vovô… ele só conseguia ficar em silêncio. Desde seu derrame, passava o tempo todo na cama. Às vezes tocava sua sineta, e era apenas nesses momentos que Demi via a Vovó afobada. Ao primeiro toque, ela sorria, dizia “Minha nossa” e disparava pelo corredor o mais rápido que seus chinelos lhe permitiam.
Demi pegou seu duende de cabelos amarelos. Cantarolando bem baixinho, ela o fez dançar “Daydream Believer” com uma bonequinha de olhos grandes. Na metade da canção, alguém bateu à porta. Era um som tão inesperado que Demi fez uma pausa na brincadeira e olhou para cima. A não ser pelos domingos, quando o Sr. e a Sra. Beattle apareciam para levá-los à igreja, ninguém jamais os visitava. A Vovó guardou o bordado na sacola plástica cor-de-rosa ao lado da cadeira e se levantou, atravessando a sala naquele passo lento e arrastado que havia se
tornado normal nos últimos anos. Quando abriu a porta, houve um longo silêncio, e então ela disse “Minha nossa”. Demi notou algo estranho na voz da Vovó. Espiando de lado, ela viu uma mulher alta com longos cabelos despenteados e um sorriso que não parava no lugar. Era uma das mulheres mais bonitas que Demi já vira: pele branca feito leite, nariz fino e arrebitado e maçãs do rosto muito definidas acima do minúsculo queixo, olhos castanhos fluidos, que abriam e fechavam lentamente.
– Essa não é uma grande recepção para a filha que você não vê há tanto tempo.
A mulher passou pela Vovó, caminhou diretamente até Demi e se abaixou: – É a minha pequena Demetria Devonne?
Filha? Isso queria dizer…
– Mamãe? – sussurrou ela, espantada, com medo de acreditar.
Havia esperado tanto tempo por isso, sonhado tanto. O retorno da mãe.
– Sentiu saudade de mim?
– Ah, sim – disse Demi, tentando não dar risada.
Mas ela estava feliz demais.
A Vovó fechou a porta.
– Por que não vem até a cozinha para tomar um café?
– Eu não vim tomar café. Vim buscar a minha filha.
– Você não tem dinheiro – falou a avó com desânimo.
Sua mãe pareceu irritada:
– E daí?
– A Demi precisa…
– Acho que consigo descobrir do que a minha filha precisa.
Sua mãe parecia tentar endireitar a postura, mas não estava funcionando.
Ela estava meio vacilante, com os olhos esquisitos. Ficava enrolando no dedo uma mecha dos cabelos compridos e ondulados.
A Vovó se aproximou das duas.
– Criar um filho é uma grande responsabilidade, Diana. Talvez se você se mudasse para cá por um tempo e conhecesse melhor a Demi, estaria pronta… –
Ela fez uma pausa, franziu a testa e disse baixinho: – Você está bêbada.
A mãe deu uma risadinha e piscou para Demi.
Demi piscou de volta. Estar bêbado não era tão mau assim. O Vovô costumava beber bastante antes de ficar doente. Até mesmo a Vovó às vezes tomava uma taça de vinho.
– É meu aniversário, mãe; ou você se esqueceu?
– Seu aniversário? – disse Demi e se levantou num salto. – Espere aqui.
Ela saiu correndo até seu quarto.
Estava com o coração disparado enquanto remexia a gaveta da mesa de cabeceira, espalhando suas coisas, procurando o colar de macarrão e contas que havia feito para a mãe no catecismo no ano anterior. A Vovó havia feito cara feia ao vê-lo, dizendo-lhe que não tivesse grandes esperanças, mas Demi não conseguira evitar. Ela estava cheia de esperanças fazia anos. Enfiou o colar no bolso e voltou correndo para a sala, bem a tempo de ouvir a mãe dizer:
– Eu não estou bêbada, mamãe querida. Eu estou com a minha filha novamente pela primeira vez em três anos. O amor é a melhor droga.
– Seis anos. Ela tinha 4 da última vez que você a deixou aqui.
– Faz tanto tempo assim? – disse a mãe de Demi, parecendo confusa.
– Volte para casa, Diana. Eu posso ajudar você.
– Como ajudou da última vez? Não, obrigada.
Última vez? Mamãe havia voltado antes?
A Vovó suspirou e então retesou o corpo.
– Por quanto tempo mais você vai usar isso contra mim?
– Não é exatamente o tipo de coisa que tenha data de vencimento, é? Vamos, Demetria.
A mãe dela já estava indo na direção da porta.
Demi franziu a testa. Isso não estava certo. Não era assim que as coisas deveriam acontecer. Sua mãe não a havia abraçado, beijado ou mesmo perguntado como ela estava. E todo mundo sabia que era preciso fazer uma mala para ir embora. Ela apontou para a porta do quarto.
– As minhas coisas…
– Você não precisa dessa parafernália materialista, Demetria.
Demi não fazia ideia do que a mãe dela estava falando.
– Ahn?
A Vovó foi até Demi, lhe deu um abraço que tinha um cheiro doce e familiar, de talco e spray de cabelos. Aqueles eram os únicos braços que haviam abraçado Demi, aquela era a única pessoa que sempre a fizera sentir-se segura e, de repente, a menina sentiu medo.
– Vovó? – disse, soltando-se. – O que está acontecendo?
– Você vem comigo – respondeu a mãe, segurando no batente da porta para se equilibrar.
A avó a soltou e deu um passo para trás.
– Você sabe o nosso telefone e o endereço, certo? Ligue se ficar assustada ou se alguma coisa der errado.
A Vovó estava chorando. Ver a avó forte e tranquila chorar deixou Demi desnorteada. O que estava havendo? O que fizera de errado?
– Eu sinto muito, Vovó, eu…
A Mamãe se lançou sobre ela e a agarrou pelos ombros, sacudindo-a com força.
– Nunca peça desculpas. Faz você parecer patética. Vamos embora.
Pegou a mão de Demi e a puxou na direção da porta.
Demi saiu tropeçando atrás da mãe para fora da casa, desceu os degraus da entrada e atravessou a rua até uma Kombi enferrujada com adesivos de flores por todos os lados e um gigantesco símbolo da paz pintado em amarelo na lateral.
A porta se abriu e uma fumaça espessa e cinza saiu de dentro da van. Através da névoa, ela viu três pessoas. Um negro com um enorme penteado afro e tiara vermelha estava no assento do motorista. No banco de trás havia uma mulher de colete de franjas e calças listradas com um lenço marrom amarrado nos cabelos loiros. Ao seu lado, um homem de calças boca de sino e camiseta amarfanhada. O piso da van estava coberto por tapetes marrons de retalhos e havia alguns cachimbos espalhados, misturados com garrafas de cerveja vazias, embalagens de comida e fitas magnéticas.
– Esta é a minha filha, Demetria– disse a mamãe.
Demi não disse nada, mas detestava ser chamada de Demetria. Diria isso à mãe mais tarde, quando as duas estivessem a sós.
– Incrível – falou alguém.
– Ela é igualzinha a você. Que louco.
– Entre – disse o motorista rispidamente. – Vamos nos atrasar.
O homem de camiseta suja estendeu o braço na direção de Demi, agarrou-a pela cintura e puxou para dentro da van, onde ela se posicionou cuidadosamente de joelhos. A mãe entrou na Kombi e bateu a porta. Uma música estranha pulsava como um coração dentro da van. Tudo o que ela conseguiu entender foram algumas palavras. A fumaça deixava tudo suave e um tanto fora de foco. Demi se aproximou da lateral de metal para abrir espaço ao seu lado, mas a mãe se sentou perto da moça com lenço na cabeça. Elas imediatamente começaram a falar sobre porcos e marchas e sobre um homem chamado Kent. Nada daquilo fazia sentido para Demi, e a fumaça a estava deixando zonza. Quando o homem ao lado dela acendeu o cachimbo, ela não conseguiu segurar um pequeno suspiro de decepção.
O homem escutou e se virou para ela. Soprando uma nuvem de fumaça cinza bem no rosto da menina, sorriu e disse:
– Apenas acompanhe o ritmo, garotinha.
– Olhe o jeito que a minha mãe a veste – disse sua mãe com amargura. – Como se ela fosse uma bonequinha. Como ela vai cair na real se não pode se sujar?
– Pode crer, Di – falou o sujeito, exalando mais fumaça e recostando-se.
A Mamãe olhou para Demi pela primeira vez. Olhou de verdade.
– Não se esqueça disso, garota. A vida é mais do que cozinhar, limpar e ter filhos. A vida é ser livre. Fazer o que se quer. Você pode ser a porra da presidente dos Estados Unidos, se quiser.
– Até que seria bom ter um novo presidente, sem dúvida – comentou o motorista.
A mulher com o lenço no cabelo deu um tapinha na coxa da Mamãe:– É isso aí. Passa esse bagulho para mim, Tommy – pediu, rindo.
Demi fez uma careta, sentindo um novo tipo de vergonha na boca do estômago. Ela achava que ficava bonita com aquele vestido. E não queria ser presidente. Queria ser bailarina. Mas, acima de tudo, queria que sua mãe a amasse. Foi chegando para o lado até ficar perto o bastante da mãe para tocá-la.
– Feliz aniversário – disse baixinho.
Enfiando a mão no bolso, tirou de dentro o colar em que havia trabalhado tanto, sofrido, até, continuando a colar purpurina até muito depois de as outras crianças terem saído da aula para brincar.
– Eu fiz para você.
Mamãe pegou o colar sem jeito e fechou os dedos ao redor dele. Demi ficou esperando que a mãe agradecesse e o pusesse no pescoço, mas ela não fez isso.
Simplesmente ficou ali sentada, dançando ao som da música e conversando com os amigos.
Por fim, Demi fechou os olhos. A fumaça a estava deixando com sono. Durante a maior parte de sua vida, ela havia sentido falta da mãe, e não do jeito que se sente falta de um brinquedo perdido ou de uma amiga que parou de brincar com você porque você não empresta seus brinquedos. Ela sentia saudade da mãe. Era um sentimento que estava sempre dentro dela, um espaço vazio que doía durante o dia e era quase insuportável à noite. Prometera a si mesma que, se a mãe um dia voltasse, ela seria boazinha. Perfeita. O que quer que tivesse feito ou dito de tão errado, ela consertaria ou mudaria. Mais do que qualquer outra coisa, queria que a mãe sentisse orgulho dela. Mas agora ela não sabia o que fazer. Em seus sonhos, as duas sempre iam embora juntas sozinhas, apenas as duas, de mãos dadas. “Aqui estamos”, a mamãe dos seus sonhos dizia quando as duas subiam uma colina que levava à casa delas. “Lar doce lar.” Então ela beijava Demi no rosto e sussurrava: “Senti tanto a sua falta. Eu não estava por perto porque…”
– Demetria. Acorde.
Demi acordou num salto. Estava com a cabeça latejando e a garganta doendo. Quando tentou dizer Onde estamos?, tudo o que saiu foi um resmungo. Todos deram risada e continuaram rindo enquanto saíam da van. Era uma rua movimentada do centro de Seattle com gente por todo lado, cantando, gritando e segurando cartazes que diziam Faça amor, não faça guerra e Não iremos à guerra. Demi nunca tinha visto tanta gente num único lugar. A Mamãe segurou sua mão e a puxou para perto dela. O resto do dia foi uma confusão de gente gritando palavras de ordem e cantando. Demi passou todos os momentos apavorada que de alguma forma pudesse largar da mão da mãe e ser arrastada pela multidão. Ela não se sentiu nem um pouco mais segura quando os policiais apareceram, porque eles traziam armas nos cintos, carregavam cassetetes e usavam escudos de plástico que protegiam seus rostos.
Mas a multidão apenas marchou e a polícia apenas observou.
Quando escureceu, ela estava cansada, com fome e dor de cabeça, mas eles continuavam caminhando, uma rua depois da outra. A multidão estava muito diferente agora. Todos haviam deixado os cartazes de lado e estavam bebendo. Às vezes ela ouvia frases inteiras ou pedaços de conversas, mas nada fazia sentido.
– Viram aqueles porcos? Eles estavam morrendo de vontade de quebrar nossos dentes, mas nós estávamos em paz, cara. Eles não podiam nos tocar. Ei, Di, você está monopolizando esse baseado.
Todo mundo ao redor deu risada, a mãe mais do que todos. Demi não conseguiu entender o que estava acontecendo e estava com uma dor de cabeça terrível. Havia muita gente ao redor deles, rindo e dançando. De algum lugar, vinha uma música que tomava conta da rua. E então, de repente, ela não estava se segurando a nada.
– Mamãe! – gritou.
Ninguém respondeu nem se virou para ela, embora houvesse pessoas por todo lado. Ela começou a empurrar as pessoas à procura da mãe, chamando por ela até não ter mais voz. Por fim, voltou ao local onde a vira pela última vez e ficou esperando na beira da calçada.
Ela vai voltar.
Demi sentiu as lágrimas ardendo em seus olhos e rolando pelo rosto enquanto ela estava ali sentada, esperando, tentando ser corajosa. Mas sua mãe não voltou.
Durante anos após esse dia, ela tentou se lembrar do que havia acontecido depois, o que ela havia feito, mas todas aquelas pessoas eram como uma nuvem obscurecendo suas lembranças. Tudo de que se lembrava era de acordar sobre um degrau imundo de cimento numa rua completamente deserta e ver um policial a cavalo.
Lá de cima, ele franziu a testa para ela e perguntou:
– Ei, pequenina, você está perdida?
– Estou.
Foi tudo o que ela conseguiu dizer sem chorar.
Ele a levou de volta à casa na Queen Anne Hill, onde sua avó a abraçou apertado, beijou seu rosto e lhe disse que não era culpa dela. Mas Demi sabia que era. De alguma forma, ela cometera um erro, havia feito algo feio. Da próxima vez que sua mãe viesse, ela se esforçaria mais. Prometeria se tornar presidente do país e nunca, nunca mais pediria desculpas. Demi conseguiu uma tabela com os nomes dos presidentes dos Estados Unidos e decorou todos, na ordem da posse. Ela dizia a quem quer que perguntasse que seria a primeira mulher presidente. Chegou inclusive a desistir das aulas de balé. Em seu aniversário de 11 anos, enquanto Vovó acendia as velas de seu bolo e cantava uma versão desanimada e chorosa de “Parabéns para Você”, Demi ficou olhando sem parar para a porta, pensando é agora, mas ninguém bateu e o telefone não tocou. Mais tarde, com as caixas de presentes abertas ao seu redor, ela tentou continuar sorrindo. Na frente dela, em cima da mesa de centro, havia um álbum de recortes vazio. Não era o melhor dos presentes, mas sua avó sempre lhe dava coisas assim – projetos para mantê-la ocupada e quieta.
– Ela nem ligou – disse Demi, levantando o olhar.
A Vovó suspirou, desanimada.
– A sua mãe tem… problemas, Demi. Ela é fraca e confusa. Eu já lhe disse isso cem vezes. Você precisa parar de fingir que as coisas são diferentes. O que importa é que você é forte.
Tinha ouvido esse conselho inúmeras vezes.
– Eu sei.
A Vovó se sentou ao lado de Demi no velho sofá floral e a colocou no colo. Demi adorava quando a Vovó lhe dava colo. Ela se aninhou e apoiou o rosto no peito macio da Vovó.
– Eu gostaria que as coisas fossem diferentes com a sua mãe, Demi, e esta é a mais pura verdade, mas ela é uma alma perdida. Já faz muito tempo.
– É por isso que ela não me ama?
A Vovó olhou para ela. Os óculos de aros escuros aumentavam seus olhos cinza-claros.
– Ela ama você do jeito dela. É por isso que sempre volta.
– Não parece amor.
– Eu sei.
– Eu acho que ela nem gosta de mim.
– É de mim que ela não gosta. Aconteceu uma coisa muito tempo atrás e eu não… Bem, isso não importa agora – falou a avó, e abraçou Demi com mais força. – Um dia ela vai se arrepender de ter perdido todos esses anos ao seu lado. Tenho certeza disso.
– Eu poderia mostrar meu álbum de recortes a ela.
A Vovó não olhou para Demi.
– Isso seria legal.
Depois de um longo silêncio, a avó disse:
– Feliz aniversário, Demi. – E a beijou na testa. – Agora é melhor eu ficar um pouco com o seu avô. Ele não está se sentindo bem hoje.
Depois que a avó saiu da sala, Demi ficou sentada olhando para a primeira página em branco de seu novo álbum de recortes. Seria o presente perfeito para dar à mãe um dia, para mostrar o que ela havia perdido. Mas com o que Demi o preencheria? Tinha algumas fotos de si mesma, tiradas principalmente pelas mães das amiguinhas em festas e passeios, mas não muitas. Os olhos da Vovó não eram bons o bastante para aquelas lentes minúsculas das câmeras fotográficas. E da mãe só tinha uma foto. Ela pegou uma caneta e escreveu cuidadosamente a data no canto superior direito da página. Então franziu a testa. O que mais? Querida mamãe. Hoje foi meu aniversário de 11 anos…
Depois desse dia, ela começou a colecionar objetos que mostravam sua vida. Fotos da escola, fotos dela praticando esportes, ingressos de cinema. Durante anos, sempre que tinha um bom dia, voltava correndo para casa e escrevia a respeito, colando qualquer recibo ou notinha que provasse onde ela havia estado ou o que havia feito. A certa altura, começou a criar algumas coisas, de forma que parecesse melhor. Não eram mentiras, apenas exageros. Qualquer coisa que algum dia pudesse levar a mãe a dizer que tinha orgulho dela. Ela preencheu aquele álbum de recortes e então outro e depois outro. A cada aniversário, ganhava um álbum novo em folha, até chegar à adolescência. Até que, um dia, algo aconteceu com ela. Ela não sabia ao certo o quê; talvez os seios que tivessem crescido mais rápido do que os de qualquer outra menina, ou talvez ela apenas houvesse ficado cansada de registrar a vida em pedaços de papel que ninguém nunca pedia para ver. Aos 14 anos, ela parou. Depositou todos os seus álbuns de menina numa caixa de papelão grande, que enfiou nofundo do armário, e pediu que a avó não comprasse mais nenhum.
– Tem certeza, querida?
– Tenho – respondeu.
Ela não se importava mais com a mãe e tentava nunca pensar nela. Na verdade, passou a dizer a todo mundo na escola que a mãe morrera num acidente de barco.
A mentira a libertou. Ela parou de comprar suas roupas no setor infantil e passou para a área juvenil. Comprava mini blusas justas que exibiam seus peitos e calças boca de sino de cintura baixa que deixavam seu bumbum bonito. Precisava esconder essas roupas da avó, mas isso era fácil: com um casaco largo e comprido e um aceno rápido, saía de casa usando o que bem entendesse. Ela descobriu que, se usasse as roupas certas e agisse de determinada maneira, era aceita pelos meninos e meninas populares. Nas noites de sexta e sábado, dizia à avó que dormiria na casa de uma amiga e ia andar de patins em Lake Hills, onde ninguém nunca perguntava a ela sobre sua família ou olhava para ela como se ela fosse a “pobre Demi”. Aprendeu a fumar sem tossir e a mascar chiclete para disfarçar o hálito. Na oitava série, era uma das garotas mais populares da escola; e ter tantos amigos ajudava. Quando se ocupava, não pensava na mulher que não a queria. Ela já não se sentia tão solitária. Mas em algumas ocasiões tinha a impressão de estar… à margem de tudo. Como se todas as pessoas com quem ela andava estivessem apenas fazendo figuração.

Era o que acontecia naquele momento. Estava em silêncio no lugar de sempre no ônibus escolar, ouvindo o zum-zum-zum das conversas ao redor. Todo mundo parecia estar falando sobre coisas de família. Ela não tinha nada a acrescentar a essas conversas. Não sabia nada sobre brigar com o irmão mais novo, ficar de castigo por responder aos pais ou ir ao shopping com a mãe. Felizmente, quando o ônibus parou em seu ponto, ela saiu rápido, dando um tchau animado para as amigas, rindo alto e acenando. Fingindo – o que se tornara um hábito nos últimos tempos. Assim que o ônibus se afastou, ela pôs a mochila nos ombros e começou a longa caminhada para casa. Havia acabado de virar a esquina quando a viu. Lá, estacionada do outro lado da rua, na frente da casa da avó, uma velha Kombi vermelha. Os adesivos de flores ainda estavam colados nas laterais. 

Amigas Para Sempre Capítulo 1

Um
Elas eram conhecidas como as meninas da alameda dos Vaga-lumes. Isso foi muito tempo atrás – há mais de três décadas, para ser exata –, mas, agora, deitada na cama, escutando uma violenta tempestade de inverno do lado de fora, parece ter sido ontem.
Na última semana (sem dúvida os piores sete dias de sua vida), ela havia perdido a capacidade de se afastar das lembranças. Ultimamente, muitas vezes voltava a ser 1974 em seus sonhos. Ela era adolescente outra vez, chegando à puberdade à sombra de uma guerra perdida, andando de bicicleta com a melhor amiga numa escuridão tão absoluta que era como ser invisível. O lugar só era relevante como ponto de referência, mas ela se lembrava dele em detalhes muito vívidos: uma faixa sinuosa de asfalto delimitada dos dois lados por valas profundas de águas turvas e colinas de gramado denso e malcuidado. Antes de as duas se conhecerem, aquela rua parecia não levar a lugar nenhum, era apenas uma alameda do interior com o nome de um inseto que ninguém jamais vira naquele canto azul e verde do planeta.
Então elas enxergaram o lugar pelos olhos uma da outra. Quando ficavam de pé juntas no alto da colina, em vez de árvores altas e buracos enlameados e montanhas distantes cobertas de neve, elas viam todos os lugares aonde um dia iriam.
À noite saíam às escondidas de suas casas e se encontravam na rua. Às margens do rio Pilchuck, fumavam cigarros roubados, choravam com “Billy, Don’t be a Hero” e contavam tudo uma à outra, unindo suas vidas até que, ao final do verão, ninguém sabia onde terminava uma garota e começava a outra.
Para todos que as conheciam, elas se tornaram simplesmente DemieKate, e por mais de trinta anos essa amizade foi o alicerce de suas vidas: forte, durável, sólido.
A música pode ter mudado ao longo das décadas, mas a promessa feita na alameda dos Vaga-lumes permaneceu: melhores amigas para sempre.
Elas acreditaram que aquela promessa iria durar, que um dia seriam velhinhas numa varanda de piso barulhento, as duas sentadas em cadeiras de balanço, conversando sobre os melhores anos de suas vidas e dando risada.
Agora ela sabia, é claro. Havia mais de um ano que vinha dizendo a si mesma que estava tudo bem, que conseguiria seguir em frente sem uma melhor amiga. Às vezes, até acreditava nisso.
Então ouvia as músicas. As músicas das duas. “Goodbye Yellow Brick Road”. “Material Girl”. “Bohemian Rhapsody”. “Purple Rain”. No dia anterior, enquanto fazia compras, uma péssima versão de “You’ve Got a Friend” a fizera chorar, bem ao lado dos rabanetes.
Afastou as cobertas e saiu da cama, tendo cuidado para não acordar o homem que dormia ao seu lado. Por um instante, ficou ali parada, olhando fixamente para ele na escuridão cheia de sombras. Mesmo dormindo, tinha uma expressão preocupada.
Tirou o telefone da base e saiu do quarto, percorrendo o corredor silencioso até a varanda. Lá, olhou para a tempestade e tomou coragem. Enquanto digitava os números conhecidos, imaginou, depois de todos aqueles meses em silêncio, o que diria àquela pessoa que havia sido sua melhor amiga, como poderia começar. Tive uma semana ruim… minha vida está desmoronando… ou,
simplesmente: preciso de você. Do outro lado do estuário negro e turbulento, o telefone tocou.
Parte Um
Os anos 1970
“Dancing Queen”

Jovem e doce, apenas 17 anos

Amigas Para Sempre prólogo

Amigas para Sempre

Demi Lovato tinha 14 anos, era linda, alegre, popular e invejada por todos. O que ninguém poderia imaginar era o sofrimento que ela vivia dentro de casa: nunca conhecera o pai, e a mãe, viciada em drogas costumava desaparecer por longos períodos, deixando a menina aos cuidados da avó.
Mas a vida de Demi se transformou quando ela se mudou para a alameda dos Vaga-lumes e conheceu a garota mais legal do mundo. Selena Gomez era inteligente, compreensiva e tão amorosa que logo fez Demi sentir-se parte de sua família.
Ao longo de mais de trinta anos de amizade, uma se tornou o porto seguro da outra. Demi ajudou Selena a descobrir a própria beleza e a encorajou a enfrentar seus medos. Kate, por sua vez, a ensinou a enxergar além das aparências e a fez entender que certos riscos não valem a pena.
As duas juraram que seriam amigas para sempre. Essa promessa resistiu ao frenesi dos anos 1970, às reviravoltas políticas das décadas de 1980 e 1990 e às promessas do novo milênio.
Até que algo acontece para abalar a confiança entre elas. Será possível perdoar uma traição de sua melhor amiga?
O melhor espelho é um velho amigo.

– GEORGE HERBERT

Bom durante essa história não vou pedir comentários, vou postar apenas para que se quiserem ler ela tem muito o que mostrar e nos dar muito para pensar em relação a muitas coisas em nossas vidas, pelo menos pra mim quando li ela toda, sou o tipo de pessoa que começa a leitura pelo fim e foi o fim da história que me prendeu a ela toda mas pode ter certeza que não será uma leitura perdida.... aproveitem!!!]

Ao final dela postarei " como manter um marido" ideia da Erii  para o nome da segunda temporada de "Procura- se um marido".

EPÍLOGO E AVISO

EPÍLOGO



Demi arrumou o cabelo despenteado pelo vento e se virou para estudar o efeito. Servia. Adorava aquelas noites em que podia usar um vestido de grife e sair com o marido... especialmente quando era por uma boa causa, como o banquete de entrega da bolsa de estudos da Jonas.
Mas, nos últimos dois anos, Joseph lhe proporcionara muitos momentos de Cinderela como aquele. Primeiro fora o casamento de contos de fadas que até mesmo a mãe dela aprovara, então a levara, com os dois meni­nos, para uma longa viagem pelos melhores museus europeus. Depois da lua de mel, instalaram-se na linda casa dele no Arizona, então já totalmente preparada para receber bebês.
O silêncio lhe chamou a atenção.
— Joseph?
Nenhuma resposta.
Ela deixou o luxuoso banheiro, mas Joseph não esta­va no quarto nem no closet. Onde estaria o marido fujão? A limusine chegaria a qualquer momento. E se tivesse que adivinhar...
Saiu para o corredor em direção ao berçário e parou. Um sorriso lhe abriu os lábios. Devia saber que encon­traria Joseph ao lado do berço. De novo.
— Joseph, vamos nos atrasar.
— Não sei se consigo deixá-la. — Não afastou os olhos da filha. — Esta será nossa primeira noite fora des­de que ela nasceu. Não esperava que fosse tão difícil.
Ele superara suas tendências de viciado no trabalho. Todas as tardes corria para casa, nunca perdia um jantar com a família e não levava trabalho para as férias.
Franziu a testa.
— Acha que Ash vai conseguir?
Demi se juntou a ele ao lado do berço.
— Ash mudou muito, sabe o quanto gosta de passar o tempo com as crianças, e ainda tem a ajuda de Elle. Elas conseguem lidar com dois garotinhos saudáveis e um anjinho de um mês.
— Sofia é perfeita. — Passou um dedo de leve no rostinho rosado da filha.
— Sim, ela é, e pare de tentar acordá-la para dizer boa noite de novo.
Ele se tornara um pai protetor para os meninos e o bebê, e Demi amava aquilo. Quando Joseph abriu o coração, abriu-o completamente.
Joseph olhou para ela, então olhou de novo e a percorreu dos pés à cabeça. O peito inchou e a respiração saiu entre os dentes cerrados. A fome que lhe tomou as feições a aqueceu toda. O desejo lhe tomou o ventre. Embora dormisse nos braços dele todas as noites, pare­cia que havia uma eternidade desde que o tomara, e seu corpo precisava dele. Terrivelmente.
Demi o virou para si e ajeitou a gravata-borboleta. Joseph ficava tão delicioso naquela camisa branca e calça de smoking que ela quase esqueceu o compromisso social e o arrastou para a cama. Então passou a mão pelo peito dele e o desejo cresceu, mas se obrigou a dar um passo para trás e combateu o impulso de beijar aquela boca.
— É bom usar alguma coisa além de roupas de maternidade ou de professora.
Ele lhe acariciou o cabelo da nuca.
— Foi você que insistiu em voltar a trabalhar enquanto os meninos estão no jardim de infância.
Verdade.
— E adoro o que faço. Tenho o melhor de dois mundos... um trabalho de meio período e meu tempo de mãe. Adoro meus alunos, e estou sentindo falta deles durante minha licença-maternidade. Já lhe agradeci por me ajudar a conseguir meu emprego?
Ele sorriu, malicioso.
— Depende de como planeja mostrar sua gratidão. Você está muito, muito sexy esta noite, sra. Jonas.
Quando ele falava naquela voz profunda e a olhava como se quisesse devorá-la, Demi sentia-se realmente desejável. Empalmou lhe o queixo macio pela barba recém-feita e gostou tanto da suavidade da pele como gostava da sensação dos pelos ásperos em suas partes mais sensíveis.
— Talvez, depois do banquete, possa me mostrar como estou sexy.
As sobrancelhas se ergueram, e a esperança brilhou nos olhos cor de avelã.
— Não é cedo demais?
— O médico me deu sinal livre hoje.
As narinas dele se abriram mais. Joseph passou os braços pela cintura dela e baixou a cabeça. O corpo quente pressionou o dela, e os lábios estavam a um milímetro dos dela quando o som de pés pequenos corren­do abalou o silêncio do berçário. Joseph suspirou, frus­trado, e a libertou.
— Me pegue, mamãe — exigiu Graham, agora com quase 3 anos.
Demi observou o rostinho sujo de comida e hesitou.
— Venha para o papai, campeão. Não queremos sujar o lindo vestido da mamãe.
Joseph ergueu o filho, que imediatamente deitou o rosto molhado no ombro do pai.
— Sua camisa... — se preocupou Demi.
— O paletó vai cobrir. Você, por outro lado... Esse vestido é lindo demais, não deve trocá-lo. Ficará com ele até que eu o tire.
Cody também chegou, e Joseph o pegou, lidando bem com as duas cargas que se mexiam como se tives­se nascido para aquilo.
Ash seguiu os meninos, elegante apesar de usar ape­nas jeans e camiseta. Demi se sentira insegura sobre se tornar amiga de uma ex-amante de Joseph, mas nem uma vez, nos últimos dois anos, durante as visitas frequentes de Ashley, percebera qualquer coisa entre o mari­do e ela.
— A limusine acabou de chegar e vou cuidar da dupla dinâmica. Divirtam-se na festa. E sim, Joseph, estou com o celular pronto se quiser um vídeo dos seus filhos.
Ele ruborizou.
— Fiz isto apenas uma vez.
— Duas — disseram ao mesmo tempo Ash e Demi, então sorriram uma para a outra.
E Demi o amava por isto.

Ele entregou os garotos a Ash e estendeu a mão. Demi a tomou e deixou que o calor da palma dele aquecesse sua alma. Mal teria podido acreditar dois anos antes, mas não havia lugar nenhum em que preferisse estar do que ao lado do homem que uma vez usara uma armadura para esconder seus sentimentos.

Tá aí mais uma história finalizada espero que tenham gostado e desculpem se não teve o beijo mas não foi minha culpa foi culpa do Graham vocês viram.... Bom agora sobre a próxima história, já tinha informado antes vai ser a continuação de procura-se um marido no qual ainda não sei que nome vai ter podem me dar dicas mas durante essa semana em que fiquei doente ganhei do meu namorado um livro já que eu adoro ler, mas eu adoro mesmo e o livro foi da autora  kristin hannah o nome é amigas para sempre simplesmente perfeito tão perfeito que li em dois dias e gostaria se quiserem de postar pra vocês durante o feriado enquanto apronto a próxima história, o livro não fala sobre um casal romantico mas sim de uma amizade entre duas meninas e logo mulheres. Espero respostas nos comentários e vejo o que faço.